O que aprendi na Vision Zero Academy, em Gotemburgo?
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O que aprendi na Vision Zero Academy, em Gotemburgo?

Entre os dias 16 e 20 de setembro, frequentei a Vision Zero Academy em Lindholmen Science Park, em Gotemburgo, Suécia.

A quem se destinava: Esta academia é especialmente direcionada para quem trabalha diretamente com questões relacionadas com a segurança rodoviária nos seus mais variados âmbitos – autoridades governamentais, indústria, municípios, organizações não governamentais (ONGs) e academia. Esta formação assume também relevo para especialistas das Nações Unidas, inclusive entidades bancárias e outras organizações internacionais.

Quais os objetivos: A Vision Zero Academy propôs-se, na sua já 6.ª edição, dotar os participantes de um conhecimento profundo da Visão Zero como política inovadora e de como esta pode afetar as metodologias de trabalho, bem como a forma como um sistema de transportes SEGURO pode ser criado. No final, foram-nos disponibilizadas ferramentas para potenciar a continuidade das sinergias criadas, de forma a facilitar o trabalho relacionado com as questões da segurança rodoviária nos nossos países de origem.

Porquê? A Suécia é um dos líderes mundiais no desenvolvimento da segurança rodoviária, com o objetivo de reduzir o número de mortes e lesões graves no trânsito. A Visão Zero é a base de todas as intervenções levadas a cabo no tráfego na Suécia. Foi em 1997 que o Parlamento Sueco adotou a Visão Zero como objetivo para a circulação rodoviária, um compromisso de longo prazo de que ninguém pode morrer ou ficar seriamente ferido no sistema de transportes rodoviários. Este compromisso já levou a alterações profundas, tanto em métodos de trabalho como em formas de intervenção, que pudemos observar e conhecer ao longo do curso.

Nesta 6.ª edição, fomos 14 os países representados neste evento:

  • Cazaquistão
  • Irlanda
  • Colômbia
  • Botswana
  • Singapura
  • Fiji
  • Jersey
  • Canadá
  • El Salvador
  • Portugal 🙋‍♀️
  • Suécia
  • Noruega

Não é de admirar que eu fosse a única pessoa autofinanciada no grupo – todos eles com cargos políticos ou institucionais que financiaram a formação e deslocação por um período ainda extenso de dias. E lá estava a Tuga, a apostar em conhecimento e rede de apoio!

Aprendi “demasiado”, mais do que serei capaz de colocar num texto sem me tornar maçadora.
Aprendi que é a WHO – World Health Organization – a entidade que desde 2004 é responsável pela recolha de dados dos 182 países integrantes. O primeiro Global Status Report on Road Safety data de 2013. Com os dados fornecidos e um conjunto de equações e algoritmos, dos reportados saem os dados estimados. Espantem-se:

  • 2 vezes mais fatalidades reais do que as reportadas!

Os últimos dados:
1,19 milhões de mortes no sistema rodoviário mundial – 69% entre os 18-59 anos, sendo a sinistralidade rodoviária a 12.ª causa de morte no mundo.

Estamos, pois, perante uma epidemia e, por essa razão, é a WHO quem coordena as operações… ah, agora entendo!

Neste momento, todos os intentos da Visão Zero são meramente orientativos, não vinculativos – pelo que a WHO teme que se tornem apenas mais um slogan, tal como nos comentou Matts-Åke Belin, que desde 2022 é Global Lead para a Decade of Action for Road Safety da WHO. Matts-Åke defende que deveria existir uma convenção internacional, de cariz vinculativo, à semelhança do que acontece com o combate ao tabagismo ou ao aquecimento global, pois, afirmou, neste momento, temos diferentes “Visões Zero”.

Os 5 pilares para a segurança rodoviária são:

  • Um bom planeamento e gestão;
  • Infraestruturas seguras;
  • A segurança dos veículos;
  • Resposta pós-colisão;
  • O comportamento dos utilizadores das vias rodoviárias.

Desenganemo-nos de continuar a apontar os utilizadores como únicos e maiores responsáveis por esta epidemia! Há todo um ecossistema que, agora, reflito, contribui para o “atual estado da nação”.
Ainda assim, uma verdade é certa – é no nosso comportamento que mais rapidamente podemos influenciar! Vamos lá! Bolas! Se pensamos que só as medidas legais nos trarão segurança, temos de fazer um momento de reflexão, pois é humanamente impossível que o controlo e a repressão permitam que algum dia a Visão Zero seja uma realidade.

Na Suécia, o lema é “um por todos e todos por um”. A mensagem é coerente, clara, uníssona e de pedagogia constante. Naquele que é o terceiro maior país da Europa Ocidental, com o menor número de agentes de autoridade per capita, a polícia é vista como aliada da comunidade para que os princípios de segurança sejam observados. São o país com maior número de câmaras de segurança instaladas em estradas, e é frequente a comunidade solicitar a sua instalação neste ou naquele local – são tidas como fundamentais para o sistema. Há quem instale as suas! Há quem as decore em épocas festivas – sem, contudo, as obstruir ou danificar!

As autoridades policiais estão, enquanto coletivo, envolvidas na segurança rodoviária, pois estão conscientes de que, atuando ao nível da prevenção, estão também a impactar a redução dos índices de criminalidade, prevenindo o suicídio (1) e reduzindo drasticamente a maior fatia deste bolo, pois a maior parte das mortes e lesões graves ou permanentes ocorre enquanto estamos a trabalhar. Não há como evitar: TODOS nos movemos nas estradas!

As contas que apresentam são claras:
75% do sucesso na redução de mortos e feridos graves advém da redução da velocidade, e por cada euro investido em segurança rodoviária há 20 euros de retorno para a comunidade (pela diminuição de todos os custos associados à mortalidade e lesões graves ou permanentes).
Reduzir a velocidade média de circulação em 1 km/hora pouparia a vida de 15 pessoas por ano, na Suécia.

Relativamente à segurança dos veículos, o trabalho próximo com a NCAP tem permitido aos suecos impulsionar a indústria a melhorar drasticamente a qualidade da sua produção, com sistemas de segurança ativos e passivos que muito contribuem para resultados menos gravosos nas situações de colisão.

O posicionamento é claro – aliciar os diversos intervenientes no ecossistema da segurança rodoviária a melhorar, e não punir aqueles que são apenas um dos elementos do sistema: os condutores.

Em última instância, como nos dizia Sven Ove Hansson, professor emérito de filosofia no Royal Institute of Technology (KTH) em Estocolmo, a segurança rodoviária é um imperativo ético. Se o automóvel não permitisse viajar a 200 km/h, pois sabemos que o corpo humano não é capaz de suportar a energia cinética daí decorrente em caso de colisão, e sendo o homem o criador da obra, não basta apontar o dedo ao condutor. Há que criar todo um sistema que nos permita viajar em verdadeira LIBERDADE.

É um pressuposto moral que, se uma tecnologia ou uma medida pode eliminar o risco de lesão fatal ou severa, ela deve ser implementada. Afinal, a Declaração Universal dos Direitos Humanos consagra-nos o direito à liberdade e à segurança!

Há mais, muito mais, que não consigo aqui transpor – é a vivência, é a mentalidade subjacente. Prometo e comprometo-me a melhorar o meu contributo pessoal na forma como escolho conduzir, deslocar-me e interagir com as pessoas que o fazem ao meu redor.

Deixo-vos uma reflexão: certamente todos já assistiram ao concurso de misses… E certamente riram ao ouvir dizer que, ao longo do seu reinado, vão “lutar” pela paz no mundo. Caso não iniciem uma guerra, estão a falar a verdade. Estão a fazer a sua parte. Eu vou fazer a minha.


(1) Aproximadamente 10% dos suicídios na Suécia (+/- 150 pessoas/ano) ocorrem nas redes viárias; um terço de todas as mortes em redes viárias na Suécia são suicídios!

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