Ser Pai é como ser um Peregrino a caminho de Santiago!
No coração de cada pessoa que se desafia a fazer um caminho, seja como peregrino ou como pai, existe uma vontade única, marcada por desafios e descobertas e que culminam numa profunda transformação.
Dito assim tudo é bonito e simples, mas realmente há passos e passos, há caminhos e caminhos, há noites bem dormidas e há (muitas) noites mal dormidas.
Mas assim como o Caminho de Santiago se estende por terras diferentes cheio de surpresas e aventuras, ser Pai não lhe fica atrás. Basta pensar em todas as fases de crescimento de um pequeno ser em construção, e em todos os desafios que nos coloca. “Calcemos” as botas (de pai) e permitam-me conduzir-vos numa história que entrelaça estes dois “caminhos”.
Ao acordar de madrugada para começar a caminhar, o peregrino, como o pai, encontra-se diante de um dia cheio de promessas e incertezas. Aos primeiros passos, firmes e decididos, ecoa o compromisso de uma etapa gloriosa que se desenha à sua frente. Da mesma forma, o pai, ao pegar no filho pela primeira vez, inicia um outro caminho, uma caminhada que não termina nunca…
Cada passo no Caminho de Santiago é um encontro consigo mesmo, uma oportunidade de reflexão e crescimento pessoal. Em cada passo o peregrino enfrenta subidas íngremes, descidas desafiadoras e retas imensas que simbolizam as oscilações da vida. Da mesma forma, o pai atravessa montanhas e vales com os seus filhos, experimenta a maior das alegrias no topo das colinas e aprende muito nos momentos mais difíceis. E continua a caminhar…
Para um peregrino, a solidão acontece, é até desejável, e muitas vezes até é provocada. Ajuda à reflexão pessoal. São momentos consigo mesmo. O pai, tem também muitas vezes que enfrentar dilemas e decisões cruciais em silêncio, muitas das vezes relegado pela sociedade para um papel secundário onde a mãe é glorificada, tem de encontrar o seu espaço junto à mãe e bebé e encontrar força para ser apoio destes sem nunca se esquecer do seu papel… ser Pai.
Os albergues ao longo do Caminho de Santiago, onde se partilham histórias e conexões com outros peregrinos, refletem também as relações profundas que um pai constrói com os seus filhos. Um peregrino também nunca é o mesmo quando “se partilha” com os outros, quando “absorve” dos outros, bem como o Pai que em cada colo, jogo, birra, fralda, sorriso, abraço ou dor, molda o pai, molda o filho, molda a relação. Uma transformação a cada passo.
O peregrino e o pai entendem que o verdadeiro significado da jornada não está apenas na chegada (que no caso do Pai nunca acontece), mas nos vínculos de amor puro e verdade que são formados ao longo do percurso do caminho (da vida)-
Assim como o peregrino que vê uma mudança constante nas paisagens, o pai é testemunha diária do rápido crescimento e evolução dos filhos (e que rápida que é). Ambos aprendem muito depressa a apreciar a beleza efémera do momento presente, pois sabem que o amanhã trará uma nova paisagem, uma nova fase da vida. E que importante é olhar para os pequenos detalhes.
Um peregrino ao alcançar a Praça do Obradoiro em Santiago encontra uma sensação de realização imediata, mas também uma compreensão profunda de que o caminho nunca termina realmente. Da mesma forma, o pai, ao ver os filhos crescerem, percebe que a paternidade é uma jornada contínua, repleta de crescimento pessoal e de experiências onde o mais importante é oferecer Tempo de qualidade, onde ambos se sentam no chão e sonham com o que construir com as peças de Lego.
O peregrino e o pai, abraçam a incerteza com alegria, percebendo que, no caminho sem destino, reside a verdadeira magia. Cada passo, cada escolha, é um momento único onde o caminho em si é o destino, e a beleza está na descoberta constante dos momentos que se desdobram sem rumo aparente.