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Os Borlububos e a dança das letras

domingo, 4 de Setembro de 2016 18:00:00 Europe/Lisbon

Os Borlububos e a dança das letras

 

 

Os Borlububos e a Dança das Letras - Histórinhas D' Embalar #30

 

Os Borlububos são fantasminhas que vivem nos subterrâneos do Porto, antigos aquedutos que transportavam a água até à cidade, quando o Porto era mais pequeno e ainda não tinha água canalizada.

Os dois fantasminhas são irmãos e gostam muito um do outro. O Borlububo, que é o mais novo, tem uma grande admiração pela irmã, Borlububa, e quer ser como ela quando for grande.  Considera-a sábia porque ela responde a todas as suas perguntas. E ele é bastante perguntador.

Mas a mana não se irrita e até parece gostar que ele seja tão curioso. É sinal de inteligência. Por isso, quando ela sai dos subterrâneos, o irmão acompanha-a.

Saem sempre à noite porque os seus olhos, habituados à escuridão dos aquedutos, não toleram a luz solar.

Esta noite, a Bolububa quer mostrar ao irmão a parte Oriental da cidade. Por isso, em vez de saírem pelo sítio do costume, frente à igreja dos Congregados, seguem por outro ramal. Andam um bocado em subida, a té a Borlububa levanta uma tampa de saneamento e espreita para ver onde estão. O seu olhar é imediatamente atraído por uma enorme janela, iluminada, na Avenida de Rodrigues de Freitas.

- Saímos já daqui - diz ela, ajudando o irmão a subir.

Coloca a tampa no lugar e aproxima-se da grande janela, que mais parece uma parede envidraçada.  Do outro lado do vidro, vêem uma menina numa cadeira de rodas, segurando nas mãos um livro aberto, enquanto a mãe lhe entrança os cabelos.

Parece uma fada pequenina.

Encantada com aquela visão, a Borlububa cola-se à vidraça e o irmão imita-a. Parecem hipnotizados.

Ninguém os vê porque são fantasmas e todos os fantasmas, mesmo os pequeninos são invisíveis.

Com o dedo a deslizar sobre o livro, da esquerda para a direita, a menina trauteia:

- Tro-fá-fá´rá! O comboio da Trofa pára! Tro-fá-fá-rá!

O comboio da Trofa arranca.

- O que é aquilo?! Pergunta o Borlububo.

- é um trava línguas – responde-lhe a irmã.

- E para que serve?

- É a ginástica da fala -  diz-lhe a Borlububa, reparando que a menina pousa o livro com ar de desânimo.

Oh! As letras estão todas agarradas ao livro. Ajudas-me a arranca-las, mãe?

- Não Teresinha! Não pode ser. As letras pertencem ao livro.

- Mas eu preciso das letras para formar novas palavras.

- Brinca com elas assim, filha. O papá está a chegar para te ler uma historia e dar-te as boas noites – aconselha a mãe, colocando-a na cama.

É então que o Borlububo repara na magreza das desvitalizadas pernas da menina.

-Que é que ela tem nas pernas?

- é paraplégica – responde a irmã.

O Borlububo vai fazer outra pergunta quando a irmã o chama com uma palmadinha no ombro.

- Vem daí!

Seguindo a irmã, uns passinhos atras dela, o Borbulho pergunta:

- Já vamos embora?

- Não ouviste a menina a dizer que queria brincar com letras soltas? Vamos ajuda-la a satisfazer o seu desejo.

 

- E onde vamos buscar letras?

- À casa dos livros!

- Hum…?! Os livros têm casa?

- Claro!

- E os sem-abrigo não…? - Questiona. Como falasse sozinho.

A Borlububa detém-se e volta-se, cobrindo o irmão com um olhar embevecido. Aquela associação de ideias pareceu-lhe ter mais sacarmos que inocência.

- Não é a mesma coisa – esclarece. Os livros são coisas e os sem-abrigo são pessoas. E as pessoas é que fazem as casas e os livros…

- São? E os sem-abrigo, quem os faz?

- Não caiem do céu, é verdade, mas depois explico. Agora temos que nos despachar com as letras, antes que a menina adormeça.

Embora ainda confuso, o fantasminha muda de assunto:

- E a casa dos livros onde é? Na livraria…?

A Borlububa agita a cabeça em sinal negativo.

- As livrarias são lojas. Os Livros não moram lá. Só lá estão de passagem, até que as pessoas se interessem por eles e os comprem. Para os lerem elas mesmas ou para oferecerem a outros leitores.

- Mas, então onde moram?

- Chegámos! – informa a Borlububa.

Esta é a casa dos livros: a Biblioteca. É aqui que os livros moram. Segue-me! Temos de ser rápidos, senão a menina adormece triste.

Um atrás do outro, os dois fantasminhas entram na Biblioteca e vão direitos à sala dos livros para a infância.

 (CONTINUA)

Para a semana não deixe de ler o que se veio a passar na casa dos livros!

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O Velho, o rapaz e o burro

domingo, 28 de Agosto de 2016 18:00:00 Europe/Lisbon

História para crianças - O Velho, o rapaz e o burro

 

 

O Velho o Rapaz e o Burro - Histórinhas D' Embalar #29

 

O mundo ralha de tudo,

Tenha ou não tenha razão,

Quero contar uma história

Em prova desta asserção.

Partia um velho campónio

Do seu monte ao povoado,

Levava um neto que tinha

O seu burrinho montado.

Encontra uns homens que dizem:

— Olha aquela que tal é!

Montado o rapaz, que é forte,

E o velho trôpego a pé.

— Tapemos a boca ao mundo —,

O velho disse: — Rapaz,

Desce do burro, que eu monto,

E vem caminhando atrás.

Monta-se, mas dizer ouve:

— Que patetice tão rata!

O tamanhão de burrinho,

E o pobre pequeno à pata.

— Eu me apeio —, diz prudente

O velho de boa-fé,

— Vá o burro sem carrego,

E vamos ambos a pé.

Apeiam-se, e outros lhe dizem:

— Toleirões, calcando lama!

De que lhes serve o burrinho?

Dormem com ele na cama?

— Rapaz —, diz o bom do velho,

— Se de irmos a pé murmuram,

Ambos no burro montemos,

A ver se inda nos censuram.

Montam, mas ouvem de um lado:

— Apeiem-se, almas de breu,

Querem matar o burrinho?

Aposto que não é seu.

— Vamos ao chão —, diz o velho,

— Já não sei o que hei-de fazer

O mundo está de tal sorte,

Que se não pode entender,

E mau se monto no burro,

Se o rapaz monta, mau é,

Se ambos montamos, é mau,

E é mau se vamos a pé:

De tudo me têm ralhado,

Agora que mais me resta?

Peguemos no burro às costas,

Façamos inda mais esta.

Pegam no burro; o bom velho

Pelas mãos o ergue do chão,

Pega-lhe o rapaz nas pernas,

E assim caminhando vão.

 

— Olhem dois loucos varridos! —,

Ouvem com grande sussurro,

— Fazendo mundo às avessas,

Tornados burros do burro!

O velho então pára e exclama:

— Do que observo me confundo,

Por mais que a gente se mate

Nunca tapa a boca ao mundo.

Rapaz, vamos como dantes,

Sirvam-nos estas lições;

É mais tolo quem dá

Ao mundo satisfações.



La Fontaine

 

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João e Maria

domingo, 21 de Agosto de 2016 18:00:00 Europe/Lisbon

História para crianças - João e Maria

 

 

João e Maria - Histórinhas D' Embalar #28

 

Às margens de uma extensa mata existia, há muito tempo, uma cabana pobre, feita de troncos de árvore, na qual morava um lenhador com sua segunda esposa e seus dois filhinhos, nascidos do primeiro casamento. O garoto chamava-se João e a menina, Maria.

 

A vida sempre fora difícil na casa do lenhador, mas naquela época as coisas haviam piorado ainda mais: não havia comida para todos.

 

Minha mulher, o que será de nós? Acabaremos todos por morrer de necessidade. E as crianças serão as primeiras.

 

- Há uma solução… - disse a madrasta, que era muito malvada. Amanhã daremos a João e Maria um pedaço de pão, depois os levaremos à mata e lá os abandonaremos.

 

O lenhador não queria nem ouvir falar de um plano tão cruel, mas a mulher, esperta e insistente, conseguiu convencê-lo.

 

No aposento ao lado, as duas crianças tinham escutado tudo, e Maria desatou a chorar.

 

- Não chore, tranqüilizou-a o irmão. Tenho uma idéia.

 

Esperou que os pais estivessem dormindo, saiu da cabana, catou um punhado de pedrinhas brancas que brilhavam ao clarão da lua e as escondeu no bolso. Depois voltou para a cama.

 

No dia seguinte, ao amanhecer, a madrasta acordou as crianças.

 

As crianças foram com o pai e a madrasta cortar lenha na floresta e lá foram abandonadas.

 

João havia marcado o caminho com as pedrinhas e, ao anoitecer, conseguiram voltar para casa.

 

O pai ficou contente, mas a madrasta, não. Mandou-os dormir e trancou a porta do quarto. Como era malvada, ela planejou levá-los ainda mais longe no dia seguinte.

 

João ouviu a madrasta novamente convencendo o pai a abandoná-los, mas desta vez não conseguiu sair do quarto para apanhar as pedrinhas, pois sua madrasta havia trancado a porta. Maria desesperada só chorava. João pediu-lhe para ficar calma e ter fé em Deus.

 

Antes de saírem para o passeio, receberam para comer um pedaço de pão velho. João, em vez de comer o pão, guardou-o.

 

Ao caminhar para a floresta, João jogava as migalhas de pão no chão, para marcar o caminho da volta.

 

Chegando a uma clareira, a madrasta ordenou que esperassem até que ela colhesse algumas frutas, por ali. Mas eles esperaram em vão. Ela os tinha abandonado mesmo!

 

- Não chore Maria, disse João. Agora, só temos é que seguir a trilha que eu fiz até aqui e ela está toda marcada com as migalhas do pão.

 

Só que os passarinhos tinham comido todas as migalhas de pão deixadas no caminho.

 

As crianças andaram muito até que chegaram a uma casinha toda feita com chocolate, biscoitos e doces. Famintos, correram e começaram a comer.

 

De repente, apareceu uma velhinha, dizendo: - Entrem, entrem, entrem, que lá dentro tem muito mais para vocês.

 

Mas a velhinha era uma bruxa que os deixou comer bastante até cair no sono em confortáveis caminhas.

 

Quando as crianças acordaram, achavam que estavam no céu, parecia tudo perfeito.

 

Porém a velhinha era uma bruxa malvada que e aprisionou João numa jaula para que ele engordasse. Ela queria devorá-lo bem gordo. E fez da pobre e indefesa Maria, sua escrava.

 

Todos os dias João tinha que mostrar o dedo para que ela sentisse se ele estava engordando. O menino, muito esperto, percebendo que a bruxa enxergava pouco, mostrava-lhe um ossinho de galinha. E ela ficava furiosa, reclamava com Maria:

 

- Esse menino, não há meio de engordar.

 

- Dê mais comida para ele!

 

Passaram-se alguns dias até que numa manhã assim que a bruxa acordou, cansada de tanto esperar, foi logo gritando:

 

- Hoje eu vou fazer uma festança. Maria ponha um caldeirão bem grande, com água até a boca para ferver e dê bastante comida paro seu o irmão, pois é hoje que eu vou comê-lo ensopado.

 

Assustada, Maria começou a chorar.

- Acenderei o forno também, pois farei um pão para acompanhar o ensopado, a bruxa falou.

 

Ela empurrou Maria para perto do forno e disse:

 

Entre e veja se o forno está bem quente para que eu possa colocar o pão.

 

A bruxa pretendia fechar o forno quando Maria estivesse lá dentro, para assá-la e comê-la também, mas Maria percebeu a intenção da bruxa e disse:

 

- Ih! Como posso entrar no forno, não sei como fazer?

 

- Menina boba! - disse a bruxa. Há espaço suficiente, até eu poderia passar por ela.

 

A bruxa se aproximou e colocou a cabeça dentro do forno. Maria, então, deu-lhe um empurrão e ela caiu lá dentro. A menina, então, rapidamente trancou a porta do forno deixando que a bruxa morresse queimada.

 

Maria foi direto libertar seu irmão.

 

Estavam muito felizes e tiveram a idéia de pegarem o tesouro que a bruxa guardava e ainda algumas guloseimas .

 

Encheram seus bolsos com tudo que conseguiram e partiram rumo a floresta.

 

Depois de muito andarem atravessaram um grande lago com a ajuda de um cisne.

 

Andaram mais um pouco e começaram a reconhecer o caminho e viram ao longe a pequena cabana do pai.

 

Ao chegarem na cabana encontraram o pai triste e arrependido. A madrasta havia morrido de fome e o pai estava desesperado com o que fez com os filhos.

 

Quando os viu, o pai ficou muito feliz e foi correndo abraçá-los. Joãozinho e Maria mostraram-lhe toda a fortuna que traziam nos seus bolsos, agora não haveria mais preocupação com dinheiro e comida e assim foram felizes para sempre.

 

Irmãos Grimm

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A Tartaruga Aviadora

domingo, 14 de Agosto de 2016 17:00:00 Europe/Lisbon

História para crianças - A tartaruga aviadora

 

 

A TARTARUGA AVIADORA - Histórinhas D' Embalar #28

 

 

Um certo dia, uma tartaruga encontrou-se com dois patos emigrantes. Ficou horas admirada, ouvindo-lhes contar suas grandes viagens pelo mundo a fora. 

 

Vocês é que são felizes, dizia a tartaruga, suspirando resignadamente. Eu também gostaria de viajar, mas ando muito devagar. 

                     - Por que não nos acompanha? Vamos correr o mundo a três... disse um dos patos. 

                     - Como poderei ir, se não sei nem ao menos andar depressa pelo chão, quanto mais voar por essas alturas e distâncias? 

                     - Podemos ajudá-la, fazendo como os aviadores. Nós seremos os pilotos e você irá como passageira. 

                      - Mas, meus amigos, onde está o avião? 

                      - Não se preocupe. Nós arranjaremos tudo, já! 

 

                      Pegaram um pau roliço e comprido, e mandaram que a tartaruga se dependurasse nele, com a boca, fortemente. Em seguida cada um  pegou uma das pontas do bastão. E lá se foram pelos ares, batendo as asas compassadamente e levando a feliz tartaruga. 

 

                     - Segure-se bem, "agarre-se" com força, comadre tartaruga!, gritou um dos patos. A viagem é comprida!... 

 

                     La da terra, os animais e as pessoas, admiradas, erguiam a cabeça, fixavam bem os olhos; estavam espantados por ver uma tartaruga voando. 

                     - Olhem, olhem, gritam alguns deles, apontando para o céu. Nunca tinha visto uma tartaruga voar! Aquela deve ser a rainha das tartarugas!... 



                    E todos riam gostosamente. 

                    A tartaruga voadora, sentia-se orgulhosa por ser admirada. 

                    - Sou mesmo a rainha, ia respondendo a ingênua tartaruga, mas não chegou a pronunciar nem a primeira silaba, porque, ao abrir a boca, soltou-se do bastão e caiu como um raio, espatifando-se no chão. 

                    Os patos continuaram seu voo, porque é o que mais sabem fazer. E ficaram comentando: 

                     - Da próxima vez que trouxermos alguém que não sabe voar, é melhor providenciarmos um paraquedas. 

.

 

MORAL DA HISTÓRIA: 

          Quando tentamos fazer algo para o qual não estamos preparados, podemos nos dar muito mal. Como se diz: " cada macaco no seu galho". 



Por Lá Fontaine 

Adaptação 

Nicéas Romeo Zanchett 

 

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O Gato das Botas

domingo, 7 de Agosto de 2016 17:00:00 Europe/Lisbon

História para crianças - O Gato das Botas!

 

 

O GATO DAS BOTAS - Histórinhas D' Embalar #27

 

Era uma vez um moleiro que tinha três filhos. Quando morreu deixou-lhes apenas um moinho, um burro e um Gato. Não foi preciso chamar o notário para dividir este património tão pequeno. O filho mais velho ficou com o moinho e o do meio ficou com o burro. Para o filho mais novo só sobrou o Gato. O rapaz ficou muito desapontado por receber uma herança tão pequena.

 

- Meus irmãos – disse ele – conseguiríamos viver honestamente se juntássemos os nossos haveres; mas, pela parte que me toca, assim que comer o Gato e fizer um casaco com a sua pele, ficarei sem nada.

 

O Gato entendeu perfeitamente estas palavras, mas fingiu não perceber e disse com um ar muito sério:

 

- Não fiques preocupado, Senhor. Só tens que me dar um saco e um par de botas para poder andar na floresta. Verás que a tua parte da herança não é assim tão miserável.

 

O rapaz não acreditou no Gato. No entanto, como já o tinha visto usar truques para caçar ratos, ficou com esperança de que ele o pudesse ajudar.

 

Assim que recebeu as suas botas, o Gato calçou-as, pôs o saco ao ombro e dirigiu-se a um local onde havia muitos coelhos. Meteu no saco um pouco de farinha, umas folhas de alface e deitou-se no chão, fingindo-se morto. O seu plano era esperar que algum jovem coelho, ignorante das coisas do mundo, aparecesse e procurasse no saco a comida que ele aí havia guardado.

 

Assim que se deitou, aconteceu o que ele queria e um coelho entrou na armadilha. O Mestre Gato puxou os cordões do saco e matou o coelho sem misericórdia.

 

Satisfeito com a caçada, o Gato dirigiu-se ao palácio do rei e pediu uma audiência. Ao entrar nos aposentos reais, saudou o rei com uma grande vénia e disse:

 

- Trago a Vossa Majestade um coelho bravo que o Marquês de Carabás (este foi o título que ele inventou para o seu amo), me ordenou que lhe oferecesse em seu nome.

 

- Diz ao teu amo – respondeu o rei – que eu agradeço e aprecio a sua gentileza.

 

Passados alguns dias, o Gato escondeu-se num campo de trigo. Assim que duas perdizes entraram no seu saco, fechou-o rapidamente. Foi então oferecê-las ao rei, como tinha feito com o coelho. Ele agradeceu e mandou servir-lhe uma bebida. Durante os dois ou três meses seguintes o Gato continuou a oferecer ao rei algumas peças de caça em nome do seu amo.

 

Um dia, sabendo que o rei ia passear à beira rio com a sua filha, a mais bela princesa do mundo, disse ao amo:

 

- Se quiseres seguir o meu conselho, ficarás rico. Só tens que te banhar no rio, no local que te indicar. Deixa o resto comigo.

 

O Marquês de Carabás seguiu o conselho do Gato, sem imaginar o que iria acontecer.

 

Quando o rei se aproximou do local, o Gato começou a gritar a plenos pulmões:

 

- Socorro, socorro, o Marquês de Carabás está a afogar-se!

 

Ao ouvir semelhante alarido, o rei espreitou pela janela da sua carruagem. Assim que reconheceu o Gato que lhe havia oferecido tantas peças de caça, ordenou aos seus guardas que socorressem o Marquês de Carabás.

 

Enquanto retiravam o pobre Marquês do rio, o Gato aproximou-se da carruagem do rei e disse-lhe que uns ladrões tinham roubado a roupa do seu amo, apesar de ele ter gritado bem alto que o estavam a assaltar.

 

O rei ordenou logo que fossem buscar um dos seus fatos mais elegantes para o Marquês de Carabás vestir. Recebeu-o, depois, com afecto. Como as belas roupas que o Marquês de Carabás vestia realçavam a sua boa figura, a princesa achou-o muito atraente e apaixonou-se por ele.

 

Em seguida, o rei convidou-o a subir para a carruagem para continuarem juntos o passeio.

 

Encantado por ver o seu plano a resultar, o Gato correu à frente e, vendo alguns camponeses que trabalhavam num prado, disse-lhes:

 

- Amigos, se não disserem ao rei que o campo onde estão a trabalhar pertence ao Marquês de Carabás, corto-vos aos bocadinhos.

 

O rei perguntou aos ceifeiros a quem pertenciam as terras em que trabalhavam.

 

- São do Marquês de Carabás – responderam eles, com receio das ameaças do Gato.

 

- Tem aqui uma grande propriedade -  disse o rei ao Marquês.

 

- Como pode ver, Senhor – respondeu o Marquês – é um campo que dá boas rendas todos os anos.

 

O Gato continuou a correr à frente e voltou a ameaçar outros camponeses:

 

- Amigos, se não disserem ao rei que o campo onde estão a trabalhar pertence ao Marquês de Carabás, corto-vos aos bocadinhos.

 

O rei, que passou pouco depois, quis saber a quem pertenciam todas aquelas searas.

 

- São do Marquês de Carabás – responderam os ceifeiros.

 

Correndo sempre à frente da carruagem, o Gato fez a mesma ameaça a todos os que encontrou, e o rei ficou maravilhado com a grande riqueza do Marquês de Carabás.

 

Finalmente, o Gato chegou a um belo castelo que pretencia a um gigante, o mais rico que alguma vez se viu, porque todas as terras por onde tinham passado lhe pertenciam. O Gato teve o cuidade de se informar sobre quem era este gigante e sobre o que sabia fazer. Pediu que o deixassem falar com ele, pois ficaria muito honrado em cumprimentá-lo.

 

O gigante recebeu-o tão delicadamente quanto um gigante sabe fazê-lo e convidou-o a sentar-se.

 

- Disseram-me que podes transformar-te em qualquer animal, por exemplo num leão ou num elefante – disse o Gato.

 

- Informaram-te acertadamente – respondeu o gigante. Para te provar que é verdade, vou transformar-me num leão.

 

Quando viu um leão à sua frente, o Gato ficou muito assustado e saltou para o telhado, embora com alguma dificuldade porque as botas não o ajudaram nada.

 

Assim que o gigante tomou a sua forma habitual, o Gato desceu do telhado e garantiu que se assustara muito.

 

- Também me disseram, mas custa-me a acreditar, que também tens o poder de te transformares nos animais mais pequenos, como por exemplo num ratinho. Confesso que acho isso impossível – afirmou o Gato.

 

- Impossível? – Gritou o gigante. – Já vais ver.

 

Nesse preciso momento transformou-se num ratinho que começou a correr pelo chão. Mal o viu, o Gato atirou-se a ele ecomeu-o.

 

Entretanto, o rei chegou às portas do castelo e pediu para o visitar. O Gato ouviu a carruagem a passar pela ponte levadiça e correu a receber o rei fazendo uma grande vénia:

 

- Bem-vindo ao castelo do Marquês de Carabás.

 

- O quê! – Exclamou o rei. – Este castelo também é vosso, Marquês? Nunca vi um pátio tão bonito. Se mo permitires, gostaria de visitar o seu interior.

 

O Marquês deu o braço à princesa e, juntos, seguiram o Rei. Entraram numa grande sala onde tinham à sua espera um magnífico banquete que o gigante tinha mandado preparar para os amigos.

 

O Rei estava encantado com as boas qualidades do Marquês e a sua filha, a princesa, estava apaixonada por ele.

 

Conhecendo a riqueza do Marquês e depois de ter bebido algumas taças de vinho, o Rei propôs-lhe:

 

- Depende apenas de si, Marquês. Se desejar, poderá ser meu genro.

 

Com uma grande vénia, o Marquês aceitou a honra que lhe fora concedida e nesse mesmo dia casou com a princesa.

 

O Gato tornou-se um grande senhor e desistiu de caçar ratos, excepto para se divertir.

 

Charles Perrault

 

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Férias em Portugal

domingo, 31 de Julho de 2016 17:00:00 Europe/Lisbon

História para crianças - Ferias em Portugal

 

 

FÉRIAS EM PORTUGAL - Histórinhas D' Embalar #26

 

-Quem me dera que viesses connosco a Portugal! - suspirou a Poppy.

 

- Quem me dera ir, também! -respondeu a Mel.

 

- A mãe diz que a agua do mar é sempre quentinha e que vamos comer toneladas de marisco – disse a Poppy.

 

- Ugh, então ainda bem que não vou.

 

Detesto marisco! – riu-se a Mel.

 

A viagem correu muito bem. Depois de o avião aterrar, a Poppy e a família recolheram as malas, arrumaram-nas no carro alugado e partiram em direcção à costa.

 

Quando chegamos? – resmungou a Poppy, impaciente.

 

Está quase – disse o pai. – Prometo.

 

Pouco depois, o carro fez uma curva apertada e surgiu-lhes no caminho uma bonita vila costeira.

 

O pai conduziu através das ruas e calcetadas em direcção ao porto e estacionou à entrada da estalagem.

 

- Já chegámos? – Exclamou.

 

- Uau! É espectacular! – espantou-se a Poppy.

 

Na manhã seguinte partiram à descoberta. Era tudo tão diferente da Colina do Pote de Mel… O ar era quente e salgado e havia muitos cafés e gelatarias diferentes.

 

- Podemos ir àquela casa de gelados? – pediu a Poppy.

 

- Tomámos o pequeno-almoço mesmo agora, além disso, vamos à praia – riu-se a mãe. – Iremos lá noutra altura, prometo.

 

Na praia, a Poppy começou a sentir-se aborrecida.

 

A mãe estava a tomar conta dos gémeos e o pai tinha o nariz enfiado num livro.

 

Se ao menos tivesse aqui a Mel, pensou a Poppy, com saudades da sua amiga. 

 

Foi então que reparou numa menina da sua idade e foi lá perguntar-lhe se ela queria brincar.

Chamava-se Joana e, embora falasse pouco inglês a Poppy nem sequer falasse português, rapidamente se tornaram boas amigas.

 

Durante o resto das férias a Poppy e a Joana divertiram-se muito juntas.

 

Nadaram no mar quentinho, entusiasmadas, construíram castelãs de areia maravilhosos, e ensinaram português e inglês uma à outra.

 

Os pais até as deixavam passear juntas pelo porto, desde que prometessem que não se afastavam muito da fonte dos golfinhos.

 

No dia do mercado, os pais levaram a Poppy e os gémeos ao centro da vila para passearem. A praça central estava cheia de bancas coloridas.

 

- Uau! Exclamou a Poopy. – Há tantas coisas giras!

 

Os gémeos queixaram-se com fome e os pais foram comprar-lhes um bolo, mas a fila era enorme e a Poppy não queria ficar à espera.

 

- Por favor, posso ir ver as outras bancas? – Pediu ela.

 

- Sim, mas promete que não te afastas -  disse a mãe.

 

 

Quando estava a caminho de uma banca de bijuteria, encontrou a Joana que parecia estar imensamente aborrecida. Ao ver a Poppy, a Joana disse algo para os pais e correu junto dela.

 

- Olha, vou comprar este colar para a Mel, a minha melhor amiga - disse a Poppy.

 

A joana gostou tanto da ideia que também comprou um para a sua melhor amiga.

 

As duas meninas passearam pelo mercado a apreciar toas as coisas bonitas que havia. Mas, a certa altura, já estavam cheias de calor.

 

- Queres um gelado? – Perguntou a Joana.

 

- Sim! Respondeu a Poppy. – Eu vi uma geladaria no nosso primeiro dia. Ficava ao lado de uma igreja branca.

 

A Joana sorriu e apontou para a torre de uma igreja.

 

Esquecendo-se da promessa que tinha feito à mãe, a Poppy foi à frente, procurando o caminho em direcção à torre daquela igreja. Entraram num beco, correram por uma rua acima, viraram à direita e depois à esquerda e, finalmente, lá estava a igreja.

 

No mercado, os pais da Poppy e da Joana aperceberam-se de que elas não estavam por perto.

 

Muitíssimos preocupados, procuraram-nas por todo o lado mas elas não apareceram. Tinham-se evaporado.

 

Entretanto a Poppy e a Joana estavam em frente à igreja, a olhar em volta.

 

Não havia nenhuma casa de gelados. O que deviam fazer?

 

A Poppy sentiu um frio terrível na barriga. Sabia que estavam perdidas e a culpa era dela.

 

- Vamos até ao mercado? Sugeriu a Joana, tentando parecer corajosa.

 

Experimentaram umas e outras ruas mas pareciam todas iguais, acabando por voltar sempre à porta da igreja. Também não queriam falar com desconhecidos e não havia nenhum polícia à vista. Não havia nada a fazer.

 

Sentaram-se nos degraus da igreja e começaram a chorar.

 

Foi então que a porta da igreja se abriu…

 

Era a dona da estalagem onde a Poppy e a família estavam hospedadas.

 

- Meninas! O que fazem aqui sozinhas?

 

- Queríamos ir à casa de gelados ao lado da igreja branca, mas já cá não está – choramingou a Joana.

 

- É porque aqui há muitas igrejas brancas parecidas! – disse a senhora.

 

- Temos de encontrar os vossos pais.

 

- Muito obrigada -  disse a Poppy no seu melhor português. – Eles estão no mercado.

 

À medida que percorriam o labirinto das ruas estreitas e calcetadas, o alívio da Poppy transformou-se em preocupação.

 

Os pais iam ficar zangados…

Depois chegaram ao mercado. A mãe da Poppy viu-a logo.

 

- Estás aí! – gritou ela. – Encontrei-te!

 

O pai da Poppy e os pais da Joana estavam logo atrás.

 

 

- Promete que nunca mais voltas a fazer uma coisa destas! – disse o pai, num tom de repreensão.

 

- Prometo! – solução a Poppy – peço muita desculpa!

 

- Eu também! – disse a Joana.

 

Durante o resto das férias a Poppy e a Joana portaram-se muito bem.

 

Por isso, no último dia a mãe decidiu que elas mereciam um mimo.

 

Foram até à vila, passaram por uma igreja branca e …

… entraram na geladaria!

 

- Obrigada! – exclamou a Poppy muito feliz – pensei que já não vínhamos cá.

 

- Bem, eu tinha prometido que te trazia – sorriu a mãe.

 

Depois de regressarem à Colina do Pote de Mel, o pai ajudou a Poppy a pôr as fotografias das ferias num álbum.

 

- Desculpa ter desaparecido no mercado – disse a Poppy.

 

- Tu sabes que as regras são para te proteger – respondeu o pai. – Não são para te estragar as brincadeiras.

 

- Eu sei – admitiu a Poppy. – Prometo que não volto a fazer o mesmo.

 

E, no fim, sempre comi o meu delicioso gelado!

 

 

Autor:

Janey Louise Jones

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