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O Pescador e a sua Mulher

domingo, 18 de Setembro de 2016 18:00:00 Europe/Lisbon

O Pescador e a sua Mulher

 

 

O Pescador e a sua Mulher - Histórinhas D' Embalar #32

 

 

Era uma vez um pobre pescador e sua mulher. Eram pobres, muito pobres. Moravam numa choupana à beira-mar, num lugar solitário. Viviam dos poucos peixes que ele pescava. Poucos porque, de tão pobre que era, ele não possuía um barco: não podia aventurar-se ao mar alto, onde estão os grandes cardumes. Tinha de se contentar com os peixes que apanhava com os anzóis ou com as redes lançadas no raso. Sua choupana, de pau-a-pique era coberta com folhas de palmeira. Quando chovia a água caía dentro da casa e os dois tinham de ficar encolhidos, agachados, num canto.

Não tinham razões para serem felizes. Mas, a despeito de tudo, tinham momentos de felicidade. Era quando começavam a falar sobre os seus sonhos. Algum dia ele teria sorte, teria uma grande pescaria, ou encontraria um tesouro – e então teriam uma casinha branca com janelas azuis, jardim na frente e galinhas no quintal. Eles sabiam que a casinha azul não passava de um sonho. Mas era tão bom sonhar! E assim, sonhando com a impossível casinha azul, eles dormiam felizes, abraçados.

Era um dia comum como todos os outros. O pescador saiu muito cedo com seus anzóis para pescar. O mar estava tranqüilo, muito azul. O céu limpo, a brisa fresca. De cima de uma pedra lançou o seu anzol. Sentiu um tranco forte. Um peixe estava preso no anzol. Lutou. Puxou. Tirou o peixe. Ele tinha escamas de prata com barbatanas de ouro. Foi então que o espanto aconteceu. O peixe falou. "Pescador, eu sou um peixe mágico, anjo dos deuses no mar. Devolva-me ao mar que realizarei o seu maior desejo…" O pescador acreditou. Um peixe que fala deve ser digno de confiança. "Eu e minha mulher temos um sonho," disse o pescador. "Sonhamos com uma casinha azul, jardim na frente, galinhas no quintal… E mais, roupa nova para minha mulher…"

Ditas estas palavras ele lançou o peixe de novo ao mar e voltou para casa, para ver se o prometido acontecera. De longe, no lugar da choupana antiga, ele viu uma casinha branca com janelas azuis, jardim na frente, e galinhas no quintal e, à frente dela, a sua mulher com um vestido novo – tão linda! Começou a correr e enquanto corria pensava: "Finalmente nosso sonho se realizou! Encontramos a felicidade!"

Foi um abraço maravilhoso. Ela ria de felicidade. Mas não estava entendendo nada. Queria explicações. E ele então lhe contou do peixe mágico. "Ele me disse que eu poderia pedir o que quisesse. E eu então me lembrei do nosso sonho…" Houve um momento de silêncio. O rosto da mulher se alterou. Cessou o riso. Ficou séria. Ela olhou para o marido e, pela primeira vez, ele lhe pareceu imensamente tolo: "Você poderia ter pedido o que quisesse? E por que não pediu uma casa maior, mais bonita, com varanda, três quartos e dois banheiros? Volte. Chame o peixe. Diga-lhe que você mudou de idéia."




O marido sentiu a repreensão e sentiu-se envergonhado. Obedeceu. Voltou. O mar já não estava tão calmo, tão azul. Soprava um vento mais forte. Gritou: "Peixe encantado, de escamas de prata e barbatanas de ouro!" O peixe apareceu e lhe perguntou: "O que é que você deseja?" O pescador respondeu "Minha mulher me disse que eu deveria ter pedido uma casa maior, com varanda, três quartos e dois banheiros!" O peixe lhe disse: "Pode ir. O desejo dela já foi atendido." De longe o pescador viu a casa nova, grande, do jeito mesmo como a mulher pedira.

"Agora ela está feliz," ele pensou. Mas ao chegar à casa o que ele viu não foi um rosto sorridente. Foi um rosto transtornado. "Tolo, mil vezes tolo! De que me vale essa casa nesse lugar ermo, onde ninguém a vê? O que eu desejo é um palacete num condomínio elegante, com dois andares, muitos banheiros, escadarias de mármore, fontes, piscina, jardins. Volte! Diga ao peixe desse novo desejo!"

O pescador, obediente, voltou. O mar estava cinzento e agitado. Gritou: "Peixe encantado, de escamas de prata e barbatanas de ouro!" O peixe apareceu e lhe perguntou: "O que é que você deseja?" O pescador respondeu "Minha mulher me disse que eu deveria ter pedido um palacete num condomínio elegante…" Antes que ele terminasse o peixe disse: "Pode voltar. O desejo dela já está satisfeito."

Depois de muito andar – agora ele já não morava perto da praia - chegou à cidade e viu, num condomínio rico, um palacete tal e qual aquele que sua mulher desejava. "Que bom," ele pensou. "Agora, com seu desejo satisfeito, ela deve estar feliz, mexendo nas coisas da casa." Mas ela não estava mexendo nas coisas da casa. Estava na janela. Olhava o palacete vizinho, muito maior e mais bonito que o seu, do homem mais rico da cidade. O seu rosto estava transtornado de raiva, os seus olhos injetados de inveja.

"Homem, o peixe disse que você poderia pedir o que quisesse. Volte. Diga-lhe que eu desejo um palácio de rainha, com salões de baile, salões de banquete, parques, lagos, cavalariças, criados, capela."

O marido obedeceu. Voltou. O vento soprava sinistro sobre o mar cor de chumbo. "Peixe encantado, de escamas de prata e barbatanas de ouro!" O peixe apareceu e lhe perguntou: "O que é que você deseja?" O pescador respondeu "Minha mulher me disse que eu deveria ter pedido um palácio com salões de baile, de banquete, parques, lagos…" - "Volte!," disse o peixe antes que ele terminasse. "O desejo de sua mulher já está satisfeito."

Era magnífico o palácio. Mais bonito do que tudo aquilo que ele jamais imaginara. Torres, bosques, gramados, jardins, lagos, fontes, criados, cavalos, cães de raça, salões ricamente decorados… Ele pensou: "Agora ela tem de estar satisfeita. Ela não pode pedir nada mais rico."

O céu estava coberto de nuvens e chovia. A mulher, de uma das janelas, observava o reino vizinho, ao longe. Lá o céu estava azul e o sol brilhava. As pessoas passeavam alegremente pelo campo.


"De que me serve este palácio se não posso gozá-lo por causa da chuva? Volte, diga ao peixe que eu quero ter o poder dos deuses para decretar que haja sol ou haja chuva!"

O homem, amedrontado, voltou. O mar estava furioso. Suas ondas se espatifavam no rochedo. "Peixe encantado, de escamas de prata e barbatanas de ouro!" – ele gritou. O peixe apareceu. "Que é que sua mulher deseja?," ele perguntou. O pescador respondeu: "Ela deseja ter o poder para decretar que haja sol ou haja chuva!"

O peixe falou suavemente. "O que vocês desejavam era felicidade, não era?" - "Sim," respondeu o pescador. "A felicidade é o que nós dois desejamos." - " Pois eu vou lhes dar a felicidade!" O pescador riu de alegria. "Volte," disse o peixe. "Vá ao lugar da sua primeira casa. Lá você encontrará a felicidade…" E com estas palavras desapareceu.

O pescador voltou. De longe ele viu a sua casinha antiga, a mesma casinha de pau-a-pique coberta de folhas de coqueiro. Viu sua mulher com o mesmo vestido velho. Ela colhia verduras na horta. Quando ela o viu veio correndo ao seu encontro. "Que bom que você voltou mais cedo," ela disse com um sorriso. "Sabe? Vou fazer uma salada e sopa de ostras, daquelas que você gosta. E enquanto comemos, vamos falar sobre a casinha branca com janelas azuis…E depois vamos dormir abraçados" .

Ditas essas palavras ela segurou a mão do pescador enquanto caminhavam, e foram felizes para sempre.

 

 

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O Fato Novo do Imperador

domingo, 11 de Setembro de 2016 18:00:00 Europe/Lisbon

O fato novo do Imperador

 

 

O Fato Novo do Imperador - Histórinhas D' Embalar #31

 

Era uma vez um imperador que viveu há muitos anos. Gostava tanto de roupas novas e bonitas que gastava todo o seu tempo e dinheiro a vestir-se. Não ligava importância ao exército, não ia ao teatro, não andava de carruagem por entre o povo a não ser quando queria exibir uma fatiota nova. Tinha um casaco diferente para cada hora do dia; e, tal como se ouve dizer de outros soberanos: "Está em Conselho!", no seu caso a resposta seria: "O imperador está no quarto de vestir!"

A vida era bastante alegre na cidade em que ele vivia. Estavam sempre a chegar forasteiros, e um dia apareceram dois indivíduos com um ar suspeito que diziam ser tecelões. Mas, segundo eles, o tecido que fabricavam não só era extraordinariamente belo como tinha ainda propriedades mágicas: mesmo quando transformado em peças de vestuário, era invisível para todas as pessoas que não desempenhassem bem as suas tarefas ou que fossem particularmente estúpidas. — Excelente! — pensou o imperador. "Que bela oportunidade para descobrir quais os homens do meu reino que não devem estar nos lugares que ocupam e quais são os espertos e os estúpidos! Pois é, aquele material tem de ser tecido e transformado em roupa imediatamente!"

E deu aos dois malandros uma grande quantia de dinheiro para começarem a trabalhar.

Assim, os dois patifes montaram dois teares e agiram como se estivessem a trabalhar afanosamente, mas a verdade é que não havia nada nos teares. Pouco depois, estavam a pedir o melhor fio de seda e de ouro, que meteram nos seus próprios bolsos, continuando a mover os braços diante dos teares vazios pela noite dentro.

Ao fim de algum tempo, o imperador pensou: "Gostava realmente de saber como vai aquilo!"

Mas, quando se lembrou de que o tecido não podia ser visto pelas pessoas estúpidas ou incompetentes no seu trabalho, sentiu-se um tanto embaraçado em ir ele próprio. Não que tivesse quaisquer dúvidas quanto às suas capacidades, é claro, mas achou que talvez fosse melhor mandar alguém primeiro, Afinal de contas, toda a gente na cidade sabia dos poderes especiais do tecido; toda a gente estava ansiosa por descobrir até que ponto o vizinho era estúpido ou incompetente.



— Já sei! Vou lá mandar o meu velho e honesto ministro! — decidiu. — É o homem indicado, o mais sensato possível, e ninguém pode queixar-se da maneira como desempenha as suas funções.

Então, o bom velho ministro foi à sala onde os dois malandros estavam a fingir que trabalhavam nos teares.

—"Que Deus me ajude!" pensou ele, abrindo os olhos cada vez mais. "Não consigo ver nada."

Mas guardou o pensamento só para si.

Os dois vigaristas pediram-lhe que se aproximasse; não achava ele que os padrões eram lindos e as cores deliciosas? E gesticulavam diante dos teares vazios. Mas, embora o pobre velho ministro espreitasse e olhasse fixamente, continuava a não ver nada, pela simples razão de que não havia lá nada para ver.

"Céus!", pensou. "Serei mesmo estúpido? Nunca pensei que fosse, e o melhor é que ninguém o pense! Serei mesmo incompetente a desempenhar as minhas funções? Não, não posso dizer que não vejo o tecido."

— Então, não o acha admirável? — perguntou um dos falsos tecelões, continuando a mexer as mãos. — Ainda não disse nada!

— Oh, é encantador, perfeitamente maravilhoso — disse o pobre velho ministro, olhando atentamente através dos óculos. — O padrão, as cores... sim, tenho de dizer ao imperador que os acho notáveis.

— Bem, isso é muito animador — disseram os dois tecelões, apontando-lhe os pormenores do padrão e as diferentes cores utilizadas.

O velho ministro ouviu atentamente, de modo a poder repetir tudo ao imperador. E foi o que fez.

Os dois impostores então pediram mais dinheiro e mais fio de sede e de ouro; disseram que precisavam disso para acabarem o tecido. Mas tudo que lhes deram foi direitinho para os seus bolsos e nem um ponto apareceu nos teares. Apesar disso, continuaram a agitar afanosamente os braços diante das máquinas vazias.





Mais tarde, o imperador mandou outro honesto funcionário para ver o andamento do trabalho e saber se o tecido estaria pronto em breve. Aconteceu-lhe a mesma coisa que ao ministro; olhou e tornou a olhar, mas, como não havia nada para ver senão os teares vazios, nada foi tudo o que ele viu.

— Não é um belo tecido? — perguntaram os aldrabões.

E ergueram o tecido imaginário diante dele, apontando para o padrão que não existia.

"Eu acho que não sou estúpido", pensou o funcionário. "Se calhar não sou a pessoa indicada para o cargo que desempenho. Bem, nunca pensaria tal coisa! E o melhor é que ninguém o pense!"

Por isso, emitiu ruídos de apreciação sobre o tecido que não conseguia ver e disse aos homens que gostava muito das cores e do desenho.

— Sim — afirmou ao imperador —, é magnífico.

As notícias sobre aquele tecido fantástico depressa se espalharam pela cidade. E então o imperador decidiu ir vê-lo ainda nos teares. Assim, com alguns servidores cuidadosamente escolhidos — entre os quais os dois honestos funcionários que já lá tinham estado —, foi à sala de tecelagem, onde os malandros faziam as suas palhaçadas, tão activos como sempre.

— Que tecido esplêndido! — exclamou o velho ministro.

— Veja o padrão, majestade! Observe as cores! — disse o outro funcionário.

E apontavam para os teares vazios, porque estavam certos de que as outras pessoas viam o tecido.

"Isto é terrível!", pensou o imperador. "Não vejo nada! Serei estúpido? Serei incompetente como imperador? É assustador pensar uma coisa dessas." Então, disse em voz alta:

— Oh, é encantador, encantador! Tem toda a nossa aprovação!

Acenou com ar satisfeito para os teares vazios; nunca iria admitir que não via lá absolutamente nada.

E os cortesãos que o acompanhavam também olhavam fixamente, todos eles secretamente alarmados por não serem capazes de ver um único fio. Mas, em voz alta, fizeram eco com o imperador:

 

— Encantador, encantador!

 

E aconselharam-no a utilizar o esplêndido tecido para o novo fato real que teria de vestir num grande cortejo a realizar dentro em pouco.

— É magnífico e tão fora do vulgar... — era o que se ouvia de todos os lados.

E o imperador condecorou os dois impostores com uma roseta para porem nas botoeiras dos casacos e o título de Funcionário Imperial do Tear.

Durante toda a noite anterior ao dia do cortejo, os dois aldrabões fingiram trabalhar, com dezasseis velas à sua volta. Toda a gente podia ver como eles estavam atarefados, tentando acabar a tempo o fato novo do imperador. Fingiam tirar o tecido dos teares, cortavam o ar com grandes tesouras de alfaiate, cosiam e tornavam a coser com agulhas sem linha. Por fim, anunciaram:

— A roupa está pronta!

O imperador foi vê-la com os seus cortesãos mais nobres, e os dois aldrabões ergueram os braços como se estivessem a levantar alguma coisa.

— Aqui estão as calças — disseram eles. — Aqui está o casaco e aqui está a cauda... — e por aí fora. — São leves como espuma; pelo toque, dir-se-ia que não se tem nada vestido, mas a beleza está precisamente aí.

— Sim, claro... — disseram os acompanhantes do imperador, embora continuassem sem ver nada, porque não havia nada para ver.

— Se Vossa Majestade Imperial quiser fazer o favor de tirar a roupa que tem vestida, teremos a honra de o ajudar a vestir esta diante do espelho grande.

O imperador despiu-se e os dois aldrabões fingiram entregar-lhe as roupas novas, uma peça de cada vez. Depois, com os braços à volta da sua cintura, fingiram ajustar a cauda, num toque final.

O imperador virou-se e deu uma volta em frente do espelho.

— Que elegante! Que bem que assenta! — murmuravam os cortesãos. — Que tecido tão rico! Que cores magníficas! Já alguma vez tinham visto uma coisa tão magnífica?

— Majestade — disse o mestre-de-cerimónias —, o dossel já está lá fora.

 

O dossel cobriria o imperador durante o cortejo.

— Bem — exclamou o imperador —, estou pronto. Assenta realmente muito bem, não acham?

E tornou a dar umas voltas em frente do espelho, como quem se admira pela última vez. Os cortesãos que tinham de pegar na ponta da cauda baixaram-se, como se erguessem alguma coisa do chão, e levantaram as mãos diante de si. Não iam deixar o povo pensar que eles não viam nada.

E assim o imperador foi caminhando no imponente cortejo, sob o esplêndido dossel, e toda a gente nas ruas ou nas janelas exclamava:

— Que ar magnífico tem o imperador! E as roupas novas... não são maravilhosas? Olhem só para a cauda! Que elegante!

O facto é que ninguém queria admitir que não via roupas nenhumas, porque isso significaria que eram estúpidos ou então incompetentes no seu trabalho. Nenhum dos belos fatos do imperador tinha sido tão admirado até então.

Foi quando se ouviu claramente uma voz espantada de criança:

— O imperador não leva nada vestido!

— Estes inocentes! As coisas ridículas que dizem! — exclamou o pai da criança.

Mas um murmúrio começou a crescer no meio da multidão:

— Aquela criança diz que o imperador não leva nada vestido... o imperador não leva nada vestido! E daí a pouco toda a gente repetia: — O imperador não leva nada vestido!

Por fim, até o próprio imperador achou que eles deviam ter razão, mas pensou para si próprio:

"Não posso parar, senão estrago o cortejo."

E lá foi andando com um ar cada vez mais orgulhoso, enquanto os cortesãos continuavam a segurar uma cauda que não existia.



Hans Christian Andersen 

 

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Os Borlububos e a dança das letras

domingo, 4 de Setembro de 2016 18:00:00 Europe/Lisbon

Os Borlububos e a dança das letras

 

 

Os Borlububos e a Dança das Letras - Histórinhas D' Embalar #30

 

Os Borlububos são fantasminhas que vivem nos subterrâneos do Porto, antigos aquedutos que transportavam a água até à cidade, quando o Porto era mais pequeno e ainda não tinha água canalizada.

Os dois fantasminhas são irmãos e gostam muito um do outro. O Borlububo, que é o mais novo, tem uma grande admiração pela irmã, Borlububa, e quer ser como ela quando for grande.  Considera-a sábia porque ela responde a todas as suas perguntas. E ele é bastante perguntador.

Mas a mana não se irrita e até parece gostar que ele seja tão curioso. É sinal de inteligência. Por isso, quando ela sai dos subterrâneos, o irmão acompanha-a.

Saem sempre à noite porque os seus olhos, habituados à escuridão dos aquedutos, não toleram a luz solar.

Esta noite, a Bolububa quer mostrar ao irmão a parte Oriental da cidade. Por isso, em vez de saírem pelo sítio do costume, frente à igreja dos Congregados, seguem por outro ramal. Andam um bocado em subida, a té a Borlububa levanta uma tampa de saneamento e espreita para ver onde estão. O seu olhar é imediatamente atraído por uma enorme janela, iluminada, na Avenida de Rodrigues de Freitas.

- Saímos já daqui - diz ela, ajudando o irmão a subir.

Coloca a tampa no lugar e aproxima-se da grande janela, que mais parece uma parede envidraçada.  Do outro lado do vidro, vêem uma menina numa cadeira de rodas, segurando nas mãos um livro aberto, enquanto a mãe lhe entrança os cabelos.

Parece uma fada pequenina.

Encantada com aquela visão, a Borlububa cola-se à vidraça e o irmão imita-a. Parecem hipnotizados.

Ninguém os vê porque são fantasmas e todos os fantasmas, mesmo os pequeninos são invisíveis.

Com o dedo a deslizar sobre o livro, da esquerda para a direita, a menina trauteia:

- Tro-fá-fá´rá! O comboio da Trofa pára! Tro-fá-fá-rá!

O comboio da Trofa arranca.

- O que é aquilo?! Pergunta o Borlububo.

- é um trava línguas – responde-lhe a irmã.

- E para que serve?

- É a ginástica da fala -  diz-lhe a Borlububa, reparando que a menina pousa o livro com ar de desânimo.

Oh! As letras estão todas agarradas ao livro. Ajudas-me a arranca-las, mãe?

- Não Teresinha! Não pode ser. As letras pertencem ao livro.

- Mas eu preciso das letras para formar novas palavras.

- Brinca com elas assim, filha. O papá está a chegar para te ler uma historia e dar-te as boas noites – aconselha a mãe, colocando-a na cama.

É então que o Borlububo repara na magreza das desvitalizadas pernas da menina.

-Que é que ela tem nas pernas?

- é paraplégica – responde a irmã.

O Borlububo vai fazer outra pergunta quando a irmã o chama com uma palmadinha no ombro.

- Vem daí!

Seguindo a irmã, uns passinhos atras dela, o Borbulho pergunta:

- Já vamos embora?

- Não ouviste a menina a dizer que queria brincar com letras soltas? Vamos ajuda-la a satisfazer o seu desejo.

 

- E onde vamos buscar letras?

- À casa dos livros!

- Hum…?! Os livros têm casa?

- Claro!

- E os sem-abrigo não…? - Questiona. Como falasse sozinho.

A Borlububa detém-se e volta-se, cobrindo o irmão com um olhar embevecido. Aquela associação de ideias pareceu-lhe ter mais sacarmos que inocência.

- Não é a mesma coisa – esclarece. Os livros são coisas e os sem-abrigo são pessoas. E as pessoas é que fazem as casas e os livros…

- São? E os sem-abrigo, quem os faz?

- Não caiem do céu, é verdade, mas depois explico. Agora temos que nos despachar com as letras, antes que a menina adormeça.

Embora ainda confuso, o fantasminha muda de assunto:

- E a casa dos livros onde é? Na livraria…?

A Borlububa agita a cabeça em sinal negativo.

- As livrarias são lojas. Os Livros não moram lá. Só lá estão de passagem, até que as pessoas se interessem por eles e os comprem. Para os lerem elas mesmas ou para oferecerem a outros leitores.

- Mas, então onde moram?

- Chegámos! – informa a Borlububa.

Esta é a casa dos livros: a Biblioteca. É aqui que os livros moram. Segue-me! Temos de ser rápidos, senão a menina adormece triste.

Um atrás do outro, os dois fantasminhas entram na Biblioteca e vão direitos à sala dos livros para a infância.

 (CONTINUA)

Para a semana não deixe de ler o que se veio a passar na casa dos livros!

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O Velho, o rapaz e o burro

domingo, 28 de Agosto de 2016 18:00:00 Europe/Lisbon

História para crianças - O Velho, o rapaz e o burro

 

 

O Velho o Rapaz e o Burro - Histórinhas D' Embalar #29

 

O mundo ralha de tudo,

Tenha ou não tenha razão,

Quero contar uma história

Em prova desta asserção.

Partia um velho campónio

Do seu monte ao povoado,

Levava um neto que tinha

O seu burrinho montado.

Encontra uns homens que dizem:

— Olha aquela que tal é!

Montado o rapaz, que é forte,

E o velho trôpego a pé.

— Tapemos a boca ao mundo —,

O velho disse: — Rapaz,

Desce do burro, que eu monto,

E vem caminhando atrás.

Monta-se, mas dizer ouve:

— Que patetice tão rata!

O tamanhão de burrinho,

E o pobre pequeno à pata.

— Eu me apeio —, diz prudente

O velho de boa-fé,

— Vá o burro sem carrego,

E vamos ambos a pé.

Apeiam-se, e outros lhe dizem:

— Toleirões, calcando lama!

De que lhes serve o burrinho?

Dormem com ele na cama?

— Rapaz —, diz o bom do velho,

— Se de irmos a pé murmuram,

Ambos no burro montemos,

A ver se inda nos censuram.

Montam, mas ouvem de um lado:

— Apeiem-se, almas de breu,

Querem matar o burrinho?

Aposto que não é seu.

— Vamos ao chão —, diz o velho,

— Já não sei o que hei-de fazer

O mundo está de tal sorte,

Que se não pode entender,

E mau se monto no burro,

Se o rapaz monta, mau é,

Se ambos montamos, é mau,

E é mau se vamos a pé:

De tudo me têm ralhado,

Agora que mais me resta?

Peguemos no burro às costas,

Façamos inda mais esta.

Pegam no burro; o bom velho

Pelas mãos o ergue do chão,

Pega-lhe o rapaz nas pernas,

E assim caminhando vão.

 

— Olhem dois loucos varridos! —,

Ouvem com grande sussurro,

— Fazendo mundo às avessas,

Tornados burros do burro!

O velho então pára e exclama:

— Do que observo me confundo,

Por mais que a gente se mate

Nunca tapa a boca ao mundo.

Rapaz, vamos como dantes,

Sirvam-nos estas lições;

É mais tolo quem dá

Ao mundo satisfações.



La Fontaine

 

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João e Maria

domingo, 21 de Agosto de 2016 18:00:00 Europe/Lisbon

História para crianças - João e Maria

 

 

João e Maria - Histórinhas D' Embalar #28

 

Às margens de uma extensa mata existia, há muito tempo, uma cabana pobre, feita de troncos de árvore, na qual morava um lenhador com sua segunda esposa e seus dois filhinhos, nascidos do primeiro casamento. O garoto chamava-se João e a menina, Maria.

 

A vida sempre fora difícil na casa do lenhador, mas naquela época as coisas haviam piorado ainda mais: não havia comida para todos.

 

Minha mulher, o que será de nós? Acabaremos todos por morrer de necessidade. E as crianças serão as primeiras.

 

- Há uma solução… - disse a madrasta, que era muito malvada. Amanhã daremos a João e Maria um pedaço de pão, depois os levaremos à mata e lá os abandonaremos.

 

O lenhador não queria nem ouvir falar de um plano tão cruel, mas a mulher, esperta e insistente, conseguiu convencê-lo.

 

No aposento ao lado, as duas crianças tinham escutado tudo, e Maria desatou a chorar.

 

- Não chore, tranqüilizou-a o irmão. Tenho uma idéia.

 

Esperou que os pais estivessem dormindo, saiu da cabana, catou um punhado de pedrinhas brancas que brilhavam ao clarão da lua e as escondeu no bolso. Depois voltou para a cama.

 

No dia seguinte, ao amanhecer, a madrasta acordou as crianças.

 

As crianças foram com o pai e a madrasta cortar lenha na floresta e lá foram abandonadas.

 

João havia marcado o caminho com as pedrinhas e, ao anoitecer, conseguiram voltar para casa.

 

O pai ficou contente, mas a madrasta, não. Mandou-os dormir e trancou a porta do quarto. Como era malvada, ela planejou levá-los ainda mais longe no dia seguinte.

 

João ouviu a madrasta novamente convencendo o pai a abandoná-los, mas desta vez não conseguiu sair do quarto para apanhar as pedrinhas, pois sua madrasta havia trancado a porta. Maria desesperada só chorava. João pediu-lhe para ficar calma e ter fé em Deus.

 

Antes de saírem para o passeio, receberam para comer um pedaço de pão velho. João, em vez de comer o pão, guardou-o.

 

Ao caminhar para a floresta, João jogava as migalhas de pão no chão, para marcar o caminho da volta.

 

Chegando a uma clareira, a madrasta ordenou que esperassem até que ela colhesse algumas frutas, por ali. Mas eles esperaram em vão. Ela os tinha abandonado mesmo!

 

- Não chore Maria, disse João. Agora, só temos é que seguir a trilha que eu fiz até aqui e ela está toda marcada com as migalhas do pão.

 

Só que os passarinhos tinham comido todas as migalhas de pão deixadas no caminho.

 

As crianças andaram muito até que chegaram a uma casinha toda feita com chocolate, biscoitos e doces. Famintos, correram e começaram a comer.

 

De repente, apareceu uma velhinha, dizendo: - Entrem, entrem, entrem, que lá dentro tem muito mais para vocês.

 

Mas a velhinha era uma bruxa que os deixou comer bastante até cair no sono em confortáveis caminhas.

 

Quando as crianças acordaram, achavam que estavam no céu, parecia tudo perfeito.

 

Porém a velhinha era uma bruxa malvada que e aprisionou João numa jaula para que ele engordasse. Ela queria devorá-lo bem gordo. E fez da pobre e indefesa Maria, sua escrava.

 

Todos os dias João tinha que mostrar o dedo para que ela sentisse se ele estava engordando. O menino, muito esperto, percebendo que a bruxa enxergava pouco, mostrava-lhe um ossinho de galinha. E ela ficava furiosa, reclamava com Maria:

 

- Esse menino, não há meio de engordar.

 

- Dê mais comida para ele!

 

Passaram-se alguns dias até que numa manhã assim que a bruxa acordou, cansada de tanto esperar, foi logo gritando:

 

- Hoje eu vou fazer uma festança. Maria ponha um caldeirão bem grande, com água até a boca para ferver e dê bastante comida paro seu o irmão, pois é hoje que eu vou comê-lo ensopado.

 

Assustada, Maria começou a chorar.

- Acenderei o forno também, pois farei um pão para acompanhar o ensopado, a bruxa falou.

 

Ela empurrou Maria para perto do forno e disse:

 

Entre e veja se o forno está bem quente para que eu possa colocar o pão.

 

A bruxa pretendia fechar o forno quando Maria estivesse lá dentro, para assá-la e comê-la também, mas Maria percebeu a intenção da bruxa e disse:

 

- Ih! Como posso entrar no forno, não sei como fazer?

 

- Menina boba! - disse a bruxa. Há espaço suficiente, até eu poderia passar por ela.

 

A bruxa se aproximou e colocou a cabeça dentro do forno. Maria, então, deu-lhe um empurrão e ela caiu lá dentro. A menina, então, rapidamente trancou a porta do forno deixando que a bruxa morresse queimada.

 

Maria foi direto libertar seu irmão.

 

Estavam muito felizes e tiveram a idéia de pegarem o tesouro que a bruxa guardava e ainda algumas guloseimas .

 

Encheram seus bolsos com tudo que conseguiram e partiram rumo a floresta.

 

Depois de muito andarem atravessaram um grande lago com a ajuda de um cisne.

 

Andaram mais um pouco e começaram a reconhecer o caminho e viram ao longe a pequena cabana do pai.

 

Ao chegarem na cabana encontraram o pai triste e arrependido. A madrasta havia morrido de fome e o pai estava desesperado com o que fez com os filhos.

 

Quando os viu, o pai ficou muito feliz e foi correndo abraçá-los. Joãozinho e Maria mostraram-lhe toda a fortuna que traziam nos seus bolsos, agora não haveria mais preocupação com dinheiro e comida e assim foram felizes para sempre.

 

Irmãos Grimm

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A Tartaruga Aviadora

domingo, 14 de Agosto de 2016 17:00:00 Europe/Lisbon

História para crianças - A tartaruga aviadora

 

 

A TARTARUGA AVIADORA - Histórinhas D' Embalar #28

 

 

Um certo dia, uma tartaruga encontrou-se com dois patos emigrantes. Ficou horas admirada, ouvindo-lhes contar suas grandes viagens pelo mundo a fora. 

 

Vocês é que são felizes, dizia a tartaruga, suspirando resignadamente. Eu também gostaria de viajar, mas ando muito devagar. 

                     - Por que não nos acompanha? Vamos correr o mundo a três... disse um dos patos. 

                     - Como poderei ir, se não sei nem ao menos andar depressa pelo chão, quanto mais voar por essas alturas e distâncias? 

                     - Podemos ajudá-la, fazendo como os aviadores. Nós seremos os pilotos e você irá como passageira. 

                      - Mas, meus amigos, onde está o avião? 

                      - Não se preocupe. Nós arranjaremos tudo, já! 

 

                      Pegaram um pau roliço e comprido, e mandaram que a tartaruga se dependurasse nele, com a boca, fortemente. Em seguida cada um  pegou uma das pontas do bastão. E lá se foram pelos ares, batendo as asas compassadamente e levando a feliz tartaruga. 

 

                     - Segure-se bem, "agarre-se" com força, comadre tartaruga!, gritou um dos patos. A viagem é comprida!... 

 

                     La da terra, os animais e as pessoas, admiradas, erguiam a cabeça, fixavam bem os olhos; estavam espantados por ver uma tartaruga voando. 

                     - Olhem, olhem, gritam alguns deles, apontando para o céu. Nunca tinha visto uma tartaruga voar! Aquela deve ser a rainha das tartarugas!... 



                    E todos riam gostosamente. 

                    A tartaruga voadora, sentia-se orgulhosa por ser admirada. 

                    - Sou mesmo a rainha, ia respondendo a ingênua tartaruga, mas não chegou a pronunciar nem a primeira silaba, porque, ao abrir a boca, soltou-se do bastão e caiu como um raio, espatifando-se no chão. 

                    Os patos continuaram seu voo, porque é o que mais sabem fazer. E ficaram comentando: 

                     - Da próxima vez que trouxermos alguém que não sabe voar, é melhor providenciarmos um paraquedas. 

.

 

MORAL DA HISTÓRIA: 

          Quando tentamos fazer algo para o qual não estamos preparados, podemos nos dar muito mal. Como se diz: " cada macaco no seu galho". 



Por Lá Fontaine 

Adaptação 

Nicéas Romeo Zanchett 

 

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O Gato das Botas

domingo, 7 de Agosto de 2016 17:00:00 Europe/Lisbon

História para crianças - O Gato das Botas!

 

 

O GATO DAS BOTAS - Histórinhas D' Embalar #27

 

Era uma vez um moleiro que tinha três filhos. Quando morreu deixou-lhes apenas um moinho, um burro e um Gato. Não foi preciso chamar o notário para dividir este património tão pequeno. O filho mais velho ficou com o moinho e o do meio ficou com o burro. Para o filho mais novo só sobrou o Gato. O rapaz ficou muito desapontado por receber uma herança tão pequena.

 

- Meus irmãos – disse ele – conseguiríamos viver honestamente se juntássemos os nossos haveres; mas, pela parte que me toca, assim que comer o Gato e fizer um casaco com a sua pele, ficarei sem nada.

 

O Gato entendeu perfeitamente estas palavras, mas fingiu não perceber e disse com um ar muito sério:

 

- Não fiques preocupado, Senhor. Só tens que me dar um saco e um par de botas para poder andar na floresta. Verás que a tua parte da herança não é assim tão miserável.

 

O rapaz não acreditou no Gato. No entanto, como já o tinha visto usar truques para caçar ratos, ficou com esperança de que ele o pudesse ajudar.

 

Assim que recebeu as suas botas, o Gato calçou-as, pôs o saco ao ombro e dirigiu-se a um local onde havia muitos coelhos. Meteu no saco um pouco de farinha, umas folhas de alface e deitou-se no chão, fingindo-se morto. O seu plano era esperar que algum jovem coelho, ignorante das coisas do mundo, aparecesse e procurasse no saco a comida que ele aí havia guardado.

 

Assim que se deitou, aconteceu o que ele queria e um coelho entrou na armadilha. O Mestre Gato puxou os cordões do saco e matou o coelho sem misericórdia.

 

Satisfeito com a caçada, o Gato dirigiu-se ao palácio do rei e pediu uma audiência. Ao entrar nos aposentos reais, saudou o rei com uma grande vénia e disse:

 

- Trago a Vossa Majestade um coelho bravo que o Marquês de Carabás (este foi o título que ele inventou para o seu amo), me ordenou que lhe oferecesse em seu nome.

 

- Diz ao teu amo – respondeu o rei – que eu agradeço e aprecio a sua gentileza.

 

Passados alguns dias, o Gato escondeu-se num campo de trigo. Assim que duas perdizes entraram no seu saco, fechou-o rapidamente. Foi então oferecê-las ao rei, como tinha feito com o coelho. Ele agradeceu e mandou servir-lhe uma bebida. Durante os dois ou três meses seguintes o Gato continuou a oferecer ao rei algumas peças de caça em nome do seu amo.

 

Um dia, sabendo que o rei ia passear à beira rio com a sua filha, a mais bela princesa do mundo, disse ao amo:

 

- Se quiseres seguir o meu conselho, ficarás rico. Só tens que te banhar no rio, no local que te indicar. Deixa o resto comigo.

 

O Marquês de Carabás seguiu o conselho do Gato, sem imaginar o que iria acontecer.

 

Quando o rei se aproximou do local, o Gato começou a gritar a plenos pulmões:

 

- Socorro, socorro, o Marquês de Carabás está a afogar-se!

 

Ao ouvir semelhante alarido, o rei espreitou pela janela da sua carruagem. Assim que reconheceu o Gato que lhe havia oferecido tantas peças de caça, ordenou aos seus guardas que socorressem o Marquês de Carabás.

 

Enquanto retiravam o pobre Marquês do rio, o Gato aproximou-se da carruagem do rei e disse-lhe que uns ladrões tinham roubado a roupa do seu amo, apesar de ele ter gritado bem alto que o estavam a assaltar.

 

O rei ordenou logo que fossem buscar um dos seus fatos mais elegantes para o Marquês de Carabás vestir. Recebeu-o, depois, com afecto. Como as belas roupas que o Marquês de Carabás vestia realçavam a sua boa figura, a princesa achou-o muito atraente e apaixonou-se por ele.

 

Em seguida, o rei convidou-o a subir para a carruagem para continuarem juntos o passeio.

 

Encantado por ver o seu plano a resultar, o Gato correu à frente e, vendo alguns camponeses que trabalhavam num prado, disse-lhes:

 

- Amigos, se não disserem ao rei que o campo onde estão a trabalhar pertence ao Marquês de Carabás, corto-vos aos bocadinhos.

 

O rei perguntou aos ceifeiros a quem pertenciam as terras em que trabalhavam.

 

- São do Marquês de Carabás – responderam eles, com receio das ameaças do Gato.

 

- Tem aqui uma grande propriedade -  disse o rei ao Marquês.

 

- Como pode ver, Senhor – respondeu o Marquês – é um campo que dá boas rendas todos os anos.

 

O Gato continuou a correr à frente e voltou a ameaçar outros camponeses:

 

- Amigos, se não disserem ao rei que o campo onde estão a trabalhar pertence ao Marquês de Carabás, corto-vos aos bocadinhos.

 

O rei, que passou pouco depois, quis saber a quem pertenciam todas aquelas searas.

 

- São do Marquês de Carabás – responderam os ceifeiros.

 

Correndo sempre à frente da carruagem, o Gato fez a mesma ameaça a todos os que encontrou, e o rei ficou maravilhado com a grande riqueza do Marquês de Carabás.

 

Finalmente, o Gato chegou a um belo castelo que pretencia a um gigante, o mais rico que alguma vez se viu, porque todas as terras por onde tinham passado lhe pertenciam. O Gato teve o cuidade de se informar sobre quem era este gigante e sobre o que sabia fazer. Pediu que o deixassem falar com ele, pois ficaria muito honrado em cumprimentá-lo.

 

O gigante recebeu-o tão delicadamente quanto um gigante sabe fazê-lo e convidou-o a sentar-se.

 

- Disseram-me que podes transformar-te em qualquer animal, por exemplo num leão ou num elefante – disse o Gato.

 

- Informaram-te acertadamente – respondeu o gigante. Para te provar que é verdade, vou transformar-me num leão.

 

Quando viu um leão à sua frente, o Gato ficou muito assustado e saltou para o telhado, embora com alguma dificuldade porque as botas não o ajudaram nada.

 

Assim que o gigante tomou a sua forma habitual, o Gato desceu do telhado e garantiu que se assustara muito.

 

- Também me disseram, mas custa-me a acreditar, que também tens o poder de te transformares nos animais mais pequenos, como por exemplo num ratinho. Confesso que acho isso impossível – afirmou o Gato.

 

- Impossível? – Gritou o gigante. – Já vais ver.

 

Nesse preciso momento transformou-se num ratinho que começou a correr pelo chão. Mal o viu, o Gato atirou-se a ele ecomeu-o.

 

Entretanto, o rei chegou às portas do castelo e pediu para o visitar. O Gato ouviu a carruagem a passar pela ponte levadiça e correu a receber o rei fazendo uma grande vénia:

 

- Bem-vindo ao castelo do Marquês de Carabás.

 

- O quê! – Exclamou o rei. – Este castelo também é vosso, Marquês? Nunca vi um pátio tão bonito. Se mo permitires, gostaria de visitar o seu interior.

 

O Marquês deu o braço à princesa e, juntos, seguiram o Rei. Entraram numa grande sala onde tinham à sua espera um magnífico banquete que o gigante tinha mandado preparar para os amigos.

 

O Rei estava encantado com as boas qualidades do Marquês e a sua filha, a princesa, estava apaixonada por ele.

 

Conhecendo a riqueza do Marquês e depois de ter bebido algumas taças de vinho, o Rei propôs-lhe:

 

- Depende apenas de si, Marquês. Se desejar, poderá ser meu genro.

 

Com uma grande vénia, o Marquês aceitou a honra que lhe fora concedida e nesse mesmo dia casou com a princesa.

 

O Gato tornou-se um grande senhor e desistiu de caçar ratos, excepto para se divertir.

 

Charles Perrault

 

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Férias em Portugal

domingo, 31 de Julho de 2016 17:00:00 Europe/Lisbon

História para crianças - Ferias em Portugal

 

 

FÉRIAS EM PORTUGAL - Histórinhas D' Embalar #26

 

-Quem me dera que viesses connosco a Portugal! - suspirou a Poppy.

 

- Quem me dera ir, também! -respondeu a Mel.

 

- A mãe diz que a agua do mar é sempre quentinha e que vamos comer toneladas de marisco – disse a Poppy.

 

- Ugh, então ainda bem que não vou.

 

Detesto marisco! – riu-se a Mel.

 

A viagem correu muito bem. Depois de o avião aterrar, a Poppy e a família recolheram as malas, arrumaram-nas no carro alugado e partiram em direcção à costa.

 

Quando chegamos? – resmungou a Poppy, impaciente.

 

Está quase – disse o pai. – Prometo.

 

Pouco depois, o carro fez uma curva apertada e surgiu-lhes no caminho uma bonita vila costeira.

 

O pai conduziu através das ruas e calcetadas em direcção ao porto e estacionou à entrada da estalagem.

 

- Já chegámos? – Exclamou.

 

- Uau! É espectacular! – espantou-se a Poppy.

 

Na manhã seguinte partiram à descoberta. Era tudo tão diferente da Colina do Pote de Mel… O ar era quente e salgado e havia muitos cafés e gelatarias diferentes.

 

- Podemos ir àquela casa de gelados? – pediu a Poppy.

 

- Tomámos o pequeno-almoço mesmo agora, além disso, vamos à praia – riu-se a mãe. – Iremos lá noutra altura, prometo.

 

Na praia, a Poppy começou a sentir-se aborrecida.

 

A mãe estava a tomar conta dos gémeos e o pai tinha o nariz enfiado num livro.

 

Se ao menos tivesse aqui a Mel, pensou a Poppy, com saudades da sua amiga. 

 

Foi então que reparou numa menina da sua idade e foi lá perguntar-lhe se ela queria brincar.

Chamava-se Joana e, embora falasse pouco inglês a Poppy nem sequer falasse português, rapidamente se tornaram boas amigas.

 

Durante o resto das férias a Poppy e a Joana divertiram-se muito juntas.

 

Nadaram no mar quentinho, entusiasmadas, construíram castelãs de areia maravilhosos, e ensinaram português e inglês uma à outra.

 

Os pais até as deixavam passear juntas pelo porto, desde que prometessem que não se afastavam muito da fonte dos golfinhos.

 

No dia do mercado, os pais levaram a Poppy e os gémeos ao centro da vila para passearem. A praça central estava cheia de bancas coloridas.

 

- Uau! Exclamou a Poopy. – Há tantas coisas giras!

 

Os gémeos queixaram-se com fome e os pais foram comprar-lhes um bolo, mas a fila era enorme e a Poppy não queria ficar à espera.

 

- Por favor, posso ir ver as outras bancas? – Pediu ela.

 

- Sim, mas promete que não te afastas -  disse a mãe.

 

 

Quando estava a caminho de uma banca de bijuteria, encontrou a Joana que parecia estar imensamente aborrecida. Ao ver a Poppy, a Joana disse algo para os pais e correu junto dela.

 

- Olha, vou comprar este colar para a Mel, a minha melhor amiga - disse a Poppy.

 

A joana gostou tanto da ideia que também comprou um para a sua melhor amiga.

 

As duas meninas passearam pelo mercado a apreciar toas as coisas bonitas que havia. Mas, a certa altura, já estavam cheias de calor.

 

- Queres um gelado? – Perguntou a Joana.

 

- Sim! Respondeu a Poppy. – Eu vi uma geladaria no nosso primeiro dia. Ficava ao lado de uma igreja branca.

 

A Joana sorriu e apontou para a torre de uma igreja.

 

Esquecendo-se da promessa que tinha feito à mãe, a Poppy foi à frente, procurando o caminho em direcção à torre daquela igreja. Entraram num beco, correram por uma rua acima, viraram à direita e depois à esquerda e, finalmente, lá estava a igreja.

 

No mercado, os pais da Poppy e da Joana aperceberam-se de que elas não estavam por perto.

 

Muitíssimos preocupados, procuraram-nas por todo o lado mas elas não apareceram. Tinham-se evaporado.

 

Entretanto a Poppy e a Joana estavam em frente à igreja, a olhar em volta.

 

Não havia nenhuma casa de gelados. O que deviam fazer?

 

A Poppy sentiu um frio terrível na barriga. Sabia que estavam perdidas e a culpa era dela.

 

- Vamos até ao mercado? Sugeriu a Joana, tentando parecer corajosa.

 

Experimentaram umas e outras ruas mas pareciam todas iguais, acabando por voltar sempre à porta da igreja. Também não queriam falar com desconhecidos e não havia nenhum polícia à vista. Não havia nada a fazer.

 

Sentaram-se nos degraus da igreja e começaram a chorar.

 

Foi então que a porta da igreja se abriu…

 

Era a dona da estalagem onde a Poppy e a família estavam hospedadas.

 

- Meninas! O que fazem aqui sozinhas?

 

- Queríamos ir à casa de gelados ao lado da igreja branca, mas já cá não está – choramingou a Joana.

 

- É porque aqui há muitas igrejas brancas parecidas! – disse a senhora.

 

- Temos de encontrar os vossos pais.

 

- Muito obrigada -  disse a Poppy no seu melhor português. – Eles estão no mercado.

 

À medida que percorriam o labirinto das ruas estreitas e calcetadas, o alívio da Poppy transformou-se em preocupação.

 

Os pais iam ficar zangados…

Depois chegaram ao mercado. A mãe da Poppy viu-a logo.

 

- Estás aí! – gritou ela. – Encontrei-te!

 

O pai da Poppy e os pais da Joana estavam logo atrás.

 

 

- Promete que nunca mais voltas a fazer uma coisa destas! – disse o pai, num tom de repreensão.

 

- Prometo! – solução a Poppy – peço muita desculpa!

 

- Eu também! – disse a Joana.

 

Durante o resto das férias a Poppy e a Joana portaram-se muito bem.

 

Por isso, no último dia a mãe decidiu que elas mereciam um mimo.

 

Foram até à vila, passaram por uma igreja branca e …

… entraram na geladaria!

 

- Obrigada! – exclamou a Poppy muito feliz – pensei que já não vínhamos cá.

 

- Bem, eu tinha prometido que te trazia – sorriu a mãe.

 

Depois de regressarem à Colina do Pote de Mel, o pai ajudou a Poppy a pôr as fotografias das ferias num álbum.

 

- Desculpa ter desaparecido no mercado – disse a Poppy.

 

- Tu sabes que as regras são para te proteger – respondeu o pai. – Não são para te estragar as brincadeiras.

 

- Eu sei – admitiu a Poppy. – Prometo que não volto a fazer o mesmo.

 

E, no fim, sempre comi o meu delicioso gelado!

 

 

Autor:

Janey Louise Jones

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