Manual de Sobrevivência no Aleitamento Materno

 

 

Preâmbulo:

 

Quando falo sobre aleitamento materno estou cerca de três horas em conversa para que as coisas possam fazer sentido para os pais – sim, porque o pai também tem um papel muito ativo no aleitamento materno – numa fase em que ainda estão grávidos. Isto acontece, quer se tratem de primeira gravidez ou não, pois todas/todos viveram ou ouviram relatos acerca do aleitamento materno.

Quando faço apoio à amamentação de forma individualizada, por norma não demoro menos do que uma hora a uma hora e meia, ainda que sejam mamãs que tenham passado pelo D’Barriga ao longo da preparação para o parto.

 

Logo, não soará estranho que diga que há três semanas que tento organizar ideias para a escrita deste “manual” sem ter grande sucesso sobre “por que ponta lhe pegar”, duma forma compreensível e fluida… e isto acumulando com o facto de este ser provavelmente um dos temas acerca do qual há mais bibliografia, blogs, guidelines, grupos de partilha, enfim… Por isso, não posso deixar de salientar que este “manual” é escrito com os seguintes pressupostos:

 

 

1. Não é um apoio individualizado nem é dirigido a ninguém em particular; pretende apenas ser um pequeno suporte, com aquilo que são as bases de um aleitamento materno de sucesso;

 

 

2. Não pretende fazer-se substituir a qualquer apoio personalizado que a mãe, puérpera e o bebé possam obter – esse é sempre bem-vindo e certamente mais assertivo e direccionado já que tem em conta a tríade mãe/ pai/ bebé em questão; Ufa! E vamos então por partes:

 

 

FASES DO ALEITAMENTO MATERNO

 

1º. Preparação – Tal como é esperado que se planeie a gravidez, também é suposto que o façamos com o aleitamento materno, seja percebendo como tudo acontece, seja tomando uma primeira decisão sobre se querem ou não amamentar;

 

2º. Colostro – é o primeiro leite que sai da mama, normalmente bastante espesso e amarelo, riquíssimo em nutrientes e comummente subvalorizado. Por ser tão rico, pouca quantidade é suficiente para que o bebé fique saciado, até porque o seu estômago não é maior do que o tamanho de um berlinde! Sim, quando nasce o bebé tem o estômago do tamanho de um berlinde!

 

3º. Descida de leite – tecnicamente, produção excessiva de leite relativamente ao consumo do bebé, caracterizada pelo enchimento da mama, muitas vezes acompanhado de dor, temperatura e dificuldade em que o bebé faça uma pega correta e um bom esvaziamento da mama. (Voltaremos aqui mais em diante)

 

4º. Leite maduro – aquilo a que eu gosto de chamar de “velocidade cruzeiro”. Sem dúvida, se fizer uma boa preparação, tudo será mais fácil pois estará conhecedora dos obstáculos.

 

 

Amamentar é em primeira instância uma decisão, tornemo-la consciente e esclarecida.

 

Para não tornar o “manual” em algo ilegível, e porque na fase “colostro” estará em meio hospitalar, não abordarei os obstáculos técnicos, apenas alerto para a importância – tantas vezes negligenciada – de cuidar da mama (primeiro biberão do bebé) desde a primeira mamada, com a aplicação de um creme (preferencialmente lanolina pura), utilização de um bom soutien de suporte, colocação de umas conchas protectoras de mamilos.

 

Idealmente andaria com a mama ao ar, mas na impossibilidade de o fazer, estes são os segredos para uma mama sã. O colostro será então aquilo que alimentará o bebé nos primeiros três a sete dias de vida, momento em que terá a descida do leite.

 

 

Quando entramos nesta fase, é fundamental que o bebé mame frequentemente, isso assegurará uma boa base de produção de leite e esvaziamento da mama, evitando que esta fique tão tensa e que o bebé não consiga efectuar a pega o que certamente fará com que o bebé não fique tão sôfrego que não queira largar a mama! - Intervalos curtos entre mamadas darão origem a mamadas mais curtas e bebés mais serenos.

 

Recordando que este “manual” não substitui um aconselhamento individualizado, a minha orientação vai no sentido de intervalos de duas a duas horas e meia entre as mamadas, de duração entre quinze a trinta minutos (no máximo) e em ambas as mamas.

 

É fundamental reter que o intervalo entre mamadas se contabiliza a partir do momento em que o bebé começa a mamar e este deverá fazer entre oito a dez mamadas por dia (vinte e quatro horas).

 

Este momento, denominado “descida do leite” por se tratar de uma resposta cerebral ao estímulo que o bebé efetua na mama desde a primeira mamada, dura cerca de vinte e quatro a quarenta e oito horas, desde que bem orientado. Superável?

 

Daqui em diante entramos na “velocidade de cruzeiro”, podemos começar a estabelecer rotinas e padrões, pois o nosso corpo já percebe quanto e quando o bebé come/mama. A Mãe Natureza é fabulosa!

 

Resumidamente, estes são os sete passos/pressupostos para o sucesso:

 

1º - Calma!

 

2º - Calma!

 

3º - Calma!

 

4º - Saber que o leite materno digere mais rápido do que o leite artificial;

 

5º - Saber que 80% daquilo que o bebé mama fá-lo nos primeiros 5 minutos de mamada – apaziguador, não?;

 

6º - Saber que quanto maior é o estímulo, maior é a produção;

 

7º - NUNCA esquecer a ….CALMA!

 

Ter esta informação sempre presente é importantíssimo para a serenidade do casal e harmonia com o bebé, senão vejamos:

 

Ponto 4 – só com esta informação percebemos porque razão, caso seja administrado ao bebé leite artificial, este fica por vezes cinco horas sem dar sinais de fome!, ao invés do que acontece quando mama leite materno, em que por vezes ao fim de uma hora ou uma hora e meia já quer voltar a mamar.

 

Ponto 5 – esta é a razão pela qual não faz qualquer sentido manter o bebé na mama por uma hora ou mais, como por vezes vemos ou sabemos que acontece….é bem provável que esse bebé apenas esteja a fazer da sua mama chupeta…. Esta situação irá inclusivamente causar confusão nos horários da amamentação, nos intervalos entre mamadas e é tantas vezes causa da interrupção do aleitamento materno.

 

Ponto 6 – eu chamar-lhe- ía o ingrediente secreto…pois se quanto maior é o estímulo maior é a produção então estou certa em defender intervalos curtos entre mamadas! Não só asseguram uma boa produção, como um excelente esvaziamento da mama e estou quase certa que excelentes ganhos de peso também. E é esta a base do meu trabalho como conselheira em aleitamento materno….

 

Em termos emocionais o aleitamento materno é muito poderoso, de forma bilateral – pela positiva e pela negativa. Assim, não poderia deixar de escrever um “manual” sem fazer uma pequena abordagem a este lado da questão; reforçando que a preparação é importantíssima, pois é nesta fase que podemos pensar no que queremos e como queremos!

 

Comunicação – uma relação não sobrevive sem comunicação, sem diálogo, sem partilha, e nesta fase em que está a viver um turbilhão de emoções que alteram o nosso “habitual”, falar é ainda mais importante! Sabemos que os homens têm dificuldade em compreender as mulheres, pois se não falarmos essa tarefa torna-se impossível!

 

Uma vez uma grávida disse: “Os meus receios com o aleitamento materno são os normais…” Isto é chinês para um homem! Fale, diga-lhe o que pensa, o que sente e como quer que ele a apoie… amamentar também o envolve a ele. Antes e durante esse processo de amamentação esse fator pode ser determinante.

 

Crie um espaço para esse momento tão intimo e especial. Deve ser sereno e confortável para que a linguagem hormonal possa acontecer.

 

Não receie pedir ajuda, isso demonstra inteligência e não fraqueza! Saiba que em todos e cada um dos momentos/fases da amamentação é normal que surjam questões… é o seu sentido de responsabilidade que a faz questionar sempre!

 

Perceba que a decisão de amamentar é sua, e diária… ninguém pode ou deve emitir juízos de valor acerca do que faz com a sua vida em cada momento. No que me for possível, conte com o meu apoio para ajudar a atingir aquilo que foram os seus objetivos!

 

 

Joana Freitas Conselheira em Aleitamento Materno