Na minha prática clínica diária tenho verificado que o torcicolo congénito é, por vezes, diagnosticado tardiamente ou tratado de forma padrão, não se verificando os resultados pretendidos, o que a longo prazo pode trazer consequências sérias para o bebé.

 

O torcicolo define-se por uma deformidade, congénita ou adquirida, caraterizada pela inclinação lateral da cabeça para o ombro homolateral e pela rotação do queixo para o lado contralateral. O bebé vai ter, portanto, os movimentos contrários limitados.

 

 

 

O torcicolo muscular congénito deve-se a um encurtamento do músculo esternocleidomastoideu (ECOM), que é detetado ao nascimento ou logo após, podendo verificar-se a existência de contratura, com ou sem tumefação.

 

Pode ter origem ainda durante a gestação, por uma posição viciosa do feto (mantida no tempo), ou por um parto traumático (parto prolongado, uso de ventosa, fórceps ou cesariana). A sua incidência varia de 0,3% a 1,9% dos recém-nascidos.

 

O verdadeiro problema é que na fisioterapia convencional o torcicolo é tratado sempre da mesma forma, ou seja, só se dá ênfase ao tratamento do ECOM (esternocleidomastoideu). E se há vezes em que este é a causa, grande parte das vezes verifica-se que é a consequência.

 

Devemos assim considerar duas hipóteses:

 

1) Por um lado, a posição do pescoço pode levar a uma plagiocefalia postural, como a outras dismorfias craniofaciais (como o desvio da articulação mandibular).

 

2) No entanto, o torcicolo pode também ser uma adaptação a uma plagiocefalia já existente, o que se verifica na maior parte dos casos. Está descrita uma associação entre a presença de torcicolo muscular congénito e a existência de displasia congénita das ancas com uma incidência que pode ir até aos 20%.

 

Daí a importância do despiste.

 

Para me explicar melhor, partilho um caso que estou a acompanhar neste momento:

 

Bebé com diagnóstico de torcicolo congénito à esquerda com tumefação, desde 1 mês de vida, faz fisioterapia convencional desde então. Quando apareceu na clínica tinha já 9 meses.

 

Na minha avaliação, pude verificar que tinha ainda bem marcado o padrão de lesão, ou seja, não conseguia rodar a cabeça para a esquerda, usando a rotação do tronco como compensação.

 

Já se verificava uma assimetria facial bem marcada com desvio da mandibula para a esquerda e eram bem visíveis as alterações craniais.

 

Veriquei uma tensão enorme em todo o lado esquerdo desde o pescoço até à anca e na posição de sentado era já visível o desvio da coluna.

 

Não é difícil de imaginar a evolução deste quadro ao longo do seu crescimento.

 

O parto foi por cesariana, o feto já estava encaixado e foi retirado pela via contrária, logo não houve a correção do crânio aquando da passagem no canal vaginal.

 

Neste caso facilmente se percebe que o torcicolo é uma adaptação à lesão do crânio.

 

Ora, se durante 8 meses estiveram apenas focados na contratura do ECOM(esternocleidomastoideu), é óbvio que o problema se mantém porque, mais uma vez, estão a tratar a consequência e não a origem do problema.

 

Nesta fase é ainda possível corrigir todas estas alterações até porque ainda não iniciou a marcha, o que torna a correção mais fácil.

 

É de salientar que foi dito à mãe que o problema já estaria resolvido, ou que passaria com o tempo.

 

Deixo aqui um alerta para todas as mães confiarem no seu instinto e se acharem que se algo não está bem, procurem outras opções.

Ninguém melhor do que nós (mães) conhece os nossos filhos e sabe o que é melhor para eles.

Num próximo artigo falarei da relação do torcicolo congénito com alterações digestivas e respiratórias no bebé.