Há uma pergunta que parece simples e não é: quem inventou a incubadora?
Comecei por fazer essa pesquisa da forma mais despretensiosa possível – à procura de uma curiosidade interessante para partilhar. E tropecei, logo de início, num post que enaltecia uma mulher como a grande responsável por este invento. Enfermeira. Claro, pensei. Inevitavelmente do cuidar. Pareceu-me fiável, pareceu-me bonito. Fui em frente.
Mas quanto mais aprofundei o tema, mais nomes masculinos apareciam a ser amplamente coroados como os verdadeiros criadores. Médicos. Obstetras. Homens com títulos e com acesso às páginas da história.
E foi esse desconforto – esse pequeno dilema que se foi tornando maior – que me trouxe até aqui.
A resposta para a pergunta inicial depende, antes de mais, do que se entende por inventar. Se inventar é construir um dispositivo e dar-lhe um nome, a resposta aponta, de facto, para o século XIX e para os seus protagonistas habituais. Mas se inventar é descobrir que um corpo frágil sobrevive melhor quando aquecido, protegido e constantemente acompanhado – então a resposta é muito mais antiga. E tem um rosto muito diferente.
A minha hipótese – e acredito que os factos a sustentam – é esta: a incubadora não foi inventada. Foi legitimada. Transformada, pela medicina institucional, de prática difusa em objeto técnico reconhecido. E esse processo implicou algo que raramente se diz em voz alta: a integração – e o simultâneo apagar – de um saber que durante séculos esteve nas mãos das mulheres.
Antes de avançar: hoje, 1 em cada 10 nascimentos são prematuros. A incubadora é, para esses bebés apressados, muitas vezes a diferença entre a vida e a morte. Compreender de onde vem esse conhecimento – e a quem pertence verdadeiramente – não é apenas uma questão histórica. É uma questão de justiça.
O que as parteiras já sabiam — e ninguém escreveu
Muito antes de qualquer dispositivo mecânico, a sobrevivência de um recém-nascido prematuro dependia de algo deceptivamente simples: calor, contacto e presença contínua.
Eram parteiras, mulheres e as mães quem assegurava esses três elementos. Envolviam os bebés em tecidos aquecidos. Mantinham-nos junto ao corpo. Vigiavam a respiração com a atenção de quem sabe que um lapso pode ser irreversível. Este conhecimento não estava escrito em lado nenhum – transmitia-se de envolta em envolta, de geração em geração, num registo oral que a medicina académica nunca se dignou classificar como ciência – e não é o único, mas a outros, iremos noutras linhas.
E por isso, quando chegou a hora de escrever a história da sobrevivência prematura, este saber ficou de fora.
Ficou de fora dos manuais. Não ficou de fora da realidade.
Hoje, os estudos sobre o método canguru demonstram que o contacto pele a pele produz resultados fisiológicos mensuráveis: regulação térmica, estabilização cardiorrespiratória, ganho de peso. O que as parteiras sabiam por experiência acumulada durante gerações, a ciência contemporânea confirmou com ensaios clínicos e dados estatísticos. O conhecimento empírico precedeu a validação científica por séculos. Simplesmente, ninguém lhe deu crédito – porque ninguém que o detinha tinha acesso às canetas que escreviam a história. Cenário que se mostra tão atual, verdade?
Stéphane Tarnier e a legitimação do óbvio
Em 1880, o obstetra francês Stéphane Tarnier visita o Jardin des Plantes, em Paris onde toma contacto com as chocadeiras utilizadas para aves. A associação que faz é imediata: um recém-nascido prematuro precisa do mesmo que um ovo – calor constante e proteção do ambiente exterior.
Tarnier encomenda um dispositivo adaptado, introduzindo-o na Maternidade de Paris e registando os resultados. A mortalidade nos bebés prematuros com menos de dois quilos baixa de forma expressiva. A medicina institucional celebra o avanço. O nome de Tarnier entra para os livros.
O que os livros da época não registaram com o mesmo cuidado: o sucesso clínico do dispositivo dependia inteiramente da monitorização contínua assegurada pelas enfermeiras e parteiras que trabalhavam na maternidade. Eram elas quem controlava a temperatura, hora a hora. Eram elas que alimentavam os bebés com conta, peso e medida. Eram elas que detetavam os primeiros sinais de deterioração antes de estes se tornarem visíveis em qualquer registo clínico. A incubadora era o objecto. O cuidado era outra coisa – e essa outra coisa não tinha nome nos arquivos, mas tinha olhos abertos no serviço, mãos humanas nos cuidados, rigor, mas também calor, do lado de fora do aparelho.
A autoria ficou com o médico. O cuidado ficou sem assinatura.
Ann Putnam e Louise Recht: as mulheres por detrás das vitrines
Há um momento nesta história em que a medicina se cruza, quase sem pedir licença, com o espetáculo. Aqui que a narrativa fica estranha — e simultaneamente fascinante.
No final do século XIX e início do século XX, o empresário Martin Couney leva recém-nascidos prematuros para exposições públicas. Em Coney Island. Em Berlim. Em Buffalo. O público paga bilhete para os ver dentro das máquinas de vidro e metal, como se fossem uma atração de feira – e na verdade, até o eram. Couney cobrava entrada. As famílias não pagavam nada pelo tratamento dos filhos.
A imagem é perturbadora à luz do modo de estar em sociedade nos dias de hoje – ou não será tanto assim….bolas, não posso divagar 😉. Os números são irrefutáveis: as taxas de sobrevivência nos pavilhões de Couney eram, em muitos casos, superiores às dos hospitais da época. A medicina institucional duvidava da tecnologia enquanto os bebés sobreviviam na feira. Há algo de irónico – e também revelador – nessa equação.
O que o público via era a incubadora. O que não via era o essencial.
Ann Putnam, enfermeira-chefe nas operações de Couney durante décadas, criou e manteve uma disciplina que o público nunca chegou a presenciar: protocolos rigorosos, rotinas estáveis, formação contínua das enfermeiras mais jovens. Num espaço que podia facilmente ser de caos e improvisação, Putnam construiu um ambiente de cuidado consistente e replicável – a espinha dorsal invisível de toda a operação. Não inventou a incubadora. Fez com que ela funcionasse.
Louise Recht foi ainda mais longe: sistematizou as práticas de alimentação e higiene neonatal com uma minúcia que viria a tornar-se referência. Observou. Registou. Corrigiu. Ajustou. Fez exatamente aquilo que a investigação clínica faz – sem que alguma vez lhe chamassem investigadora, sem que lhe reconhecessem autoria sobre o que construiu.
Entre o ruído das feiras e o brilho das lâmpadas, eram estas mãos, de entre outras tantas anónimas – treinadas, atentas e raramente nomeadas – que mantinham aqueles corpos frágeis do lado de cá da vida.
A ironia mais fina desta história é que foi o público curioso, comprando bilhetes para ver tão estranha máquina, quem financiou involuntariamente décadas de cuidado neonatal avançado. A incubadora estava em exposição. O verdadeiro trabalho estava nos bastidores – e tinha rosto de mulheres.
Mas as feiras não duravam para sempre. E os bebés prematuros precisavam de um lugar mais permanente do que uma tenda em Coney Island.
Evelyn Lundeen: a mulher que assinou o seu nome
Quando a neonatologia começa a instalar-se definitivamente dentro dos hospitais, a narrativa ganha um “verniz” mais respeitável – menos feira, mais ciência. É aqui que emerge Julius Hess, frequentemente nomeado como um dos fundadores da neonatologia moderna. Mas talvez seja mais rigoroso dizer: um dos que soube reconhecer, dentro das hierarquias rígidas do seu tempo, que o cuidado não se faz sozinho.
Ao seu lado – e, na prática quotidiana, muitas vezes um passo à frente – estava Evelyn Lundeen.
Vale a pena parar aqui. Mesmo que por um momento.
Lundeen não aparece nesta história como assistente ou como sombra discreta. Aparece como coautora. Em 1949, publicam em conjunto The Premature Infant: Its Medical and Nursing Care – um dos textos fundadores da especialidade.
Lundeen dirigiu durante anos a unidade de prematuros do Sarah Morris Hospital, em Chicago – uma das primeiras unidades neonatais estruturadas dos Estados Unidos. Não era uma posição decorativa: era ela quem tomava as decisões clínicas do dia a dia, quem formava as enfermeiras que depois replicavam os seus métodos noutros hospitais, quem transformava a observação em protocolo e o protocolo em norma. Lundeen não assina apenas o seu nome: assina práticas, protocolos, uma forma sistemática de pensar o cuidado neonatal que ainda hoje ressoa nas unidades modernas. Foi ela quem transformou o que existia apenas como saber prático e transmitido oralmente em disciplina com linguagem própria, com método, com transmissibilidade científica.
E ainda assim – e aqui reside o paradoxo que este texto tenta desmontar – é o nome de Hess que sobrevive com mais naturalidade nas referências, nos obituários, nas enciclopédias. O nome de Lundeen exige pesquisa. Exige querer encontrá-lo.
A história torna-se mais reveladora do que qualquer argumento teórico. O saber feminino não desaparece com a chegada da medicina institucional – torna-se, pelo contrário, absolutamente indispensável. Mas passa a existir sob uma nova gramática: mais técnica, mais hierarquizada, e paradoxalmente mais invisível.
O cuidado ganha protocolos. Ganha legitimidade científica. Mas continua a depender daquilo que nunca coube totalmente nos manuais: a atenção constante, o gesto afinado, a leitura silenciosa de um corpo frágil que ainda não sabe bem que quer ficar.
O regresso ao corpo – ou: como a medicina redescobriu o que já se sabia
A partir dos anos setenta do século XX, começa a emergir uma crítica séria ao modelo exclusivamente tecnológico do cuidado neonatal. E a resposta que surge não é um novo dispositivo. É um gesto antigo.
O método canguru – desenvolvido inicialmente na Colômbia, nos anos oitenta, em hospitais com poucos recursos e incubadoras a mais para os bebés que tinham – demonstra eficácia comparável ou superior à incubadora em determinadas situações. Os benefícios documentados são extensos: regulação térmica, menor risco de infeção, ganho de peso mais rápido, melhor desenvolvimento neurológico, vínculo afetivo mais sólido, potenciador de maior sucesso na amamentação.
A medicina chama-lhe inovação. As parteiras chamar-lhe-iam memória.
O círculo fecha-se de forma quase perfeita: o que os ensaios clínicos contemporâneos validam com rigor metodológico é, no essencial, o mesmo que mulheres anónimas praticavam em quartos sem nome muito antes de qualquer incubadora existir. A diferença é que desta vez há quem documente. Há quem assine. Há quem receba o crédito.
Este gesto – carregar, aquecer, estar – não ficou confinado às unidades neonatais. Chegou às ruas, às casas, às famílias que descobriram no transporte ao colo uma forma de prolongar esse contacto para além do hospital. Não é uma moda. É uma memória do corpo que a ciência foi apenas confirmar. No D’Barriga trabalhamos com famílias e queremos que possam fazer escolhas informadas sobre como carregar os seus filhos – gostamos de pensar que, de alguma forma, estamos a continuar o que estas mulheres começaram.
O que esta história nos diz – e o que nos pede
Existe um padrão ao longo desta narrativa que vale a pena enunciar sem rodeios: parteiras, enfermeiras e mães estiveram sempre no centro do cuidado neonatal. Durante séculos, foram elas quem assegurou que os bebés prematuros tinham alguma possibilidade de sobreviver. E, no entanto, raramente foram reconhecidas como agentes de inovação – porque a inovação, para ser reconhecida como tal, precisava de passar pelo crivo de quem tinha autoridade para a nomear.
Ann Putnam, Louise Recht e Evelyn Lundeen têm algo em comum que vai além de serem mulheres numa área dominada por homens. Fizeram ciência – observaram, sistematizaram, corrigiram, transmitiram – sem que lhes chamassem cientistas. Construíram uma disciplina sem que lhes reconhecessem a fundação.
A incubadora não foi inventada. Foi legitimada – pelo peso institucional da medicina, pelo brilho das exposições, pela caneta dos médicos que assinou o que as mãos das enfermeiras sustentavam dia após dia.
Mas a sobrevivência – essa – sempre dependeu do mesmo. De alguém que ficasse. Que vigiasse. Que não desistisse de um corpo pequeno que ainda não sabia que precisava de lutar.
Esse alguém, ao longo da história, teve quase sempre rosto de mulher.
Chegou a hora de lhe dar também um nome.
Referências Baker, J. P. (1996). The machine in the nursery. Johns Hopkins University Press. Charpak, N. et al. (2005). Kangaroo mother care: 25 years after. Acta Paediatrica, 94(5), 514–522. Conde-Agudelo, A., & Díaz-Rossello, J. L. (2016). Kangaroo mother care to reduce morbidity and mortality in low birthweight infants. Cochrane Database of Systematic Reviews, (8). Hess, J. H. (1922). Premature and congenitally diseased infants. Lea & Febiger. Lundeen, E., & Hess, J. H. (1949). The premature infant: Its medical and nursing care. Lippincott. Cone, T. E. (1985). History of the care and feeding of the premature infant. Little Brown.